quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Belani

Depois de uma infância passada entre água serenas com agulhões esparsos fez-se quase mulher. Belani é uma jovem linda. De pernas esguias e cabelo preto, longo, ondulado e sedutor, apaixona pelo seu doce olhar. A cor dos olhos fica esquecida na candura da face quando sorri. Não caminha, desliza docemente por soalho ou empedrado e o coração é em forma de pedra preciosa. Querida Belani. Dedicou-se de tal forma aos meninos da mãe que lhes bebeu a ternura, soprando-lhes, de seguida, amor do puro, daquele que só se lê nos livros. Esta história é uma homenagem a si.

Belani era muito Jovem e bela. E adorava os meninos.... Desempenhava funções de Educadora num infantário triste de paredes, mas que se queria alegre de emoções. Apesar da onda de calor humano, Belani partilhava o seu cantinho de ensino com uma mulher velha, má e rancorosa, que, quis o destino, nunca teve coração bom. A feia, com ar de bruxa, invejava a beleza e a juventude da Belani e apesar de já não ter grande força, todos os dias lhe sugava por artes de magia o ar que ela respirava, deixando-a fraca e à sua merce. Aproveitava os momentos de alienação que induzia na bela para maltratar os meninos com urros de malvadez e olhares faiscantes de raiva. Belani, contudo, ante o panorama, erguia-se estoicamente e cambaleando afastava-a com um simples sorriso e as crianças, mais serenas, mas ainda assustadas, recomeçavam a brincar. Belani falava-lhes então com a sua voz de fada e elas vinham sentar-se a seus pés, para ouvir mais uma história de final feliz.

(nota da autora: afinal não é Belami, é Belani! Fui corrigida!)

No infantário, a manhã passava depressa, mas a tarde arrastava-se, lânguida, entre sestas e entretenimentos menos enriquecedores. E era a hora da velha bruxa. À tarde rabujava mais do que nunca e o seu olhar atingia uma intensidade só ultrapassada pelo faiscar dos momentos de glória, quando Belani, exaurida por artes de magia negra, abandonava os seus meninos. Era estranha a sua reacção de despertar ante os impulsos da malvada, não os sabia explicar, mas agradecia ao vazio a quebra do seu turpor que a levava a salvar a tempo a menina dos lacinhos rosa. Estranho era também que Belani consumia-se de dia , mas a noite, munida de pincel e tintas, forra de enchimento e sopros de bondade, reconstruia a sua beleza, em escala ascendente, e para desespero da velha bruxa, cada vez com maior precisão.
Ao contrário de Belani, a bárbara companheira amava a solidão da noite. Maria, chamava-se. Não uma Maria de hoje, chamada em timbres afectados da Foz, mas uma Maria de outrora. Maria mulher do campo, fora de moda, gritada em sotaque bairrista e conviva de Sebastiões e Rafaeis mal batizados. Vestia sempre de negro e não gostava de luar. Agigantava-se lendo livros antigos e corroídos de magia má ante a luz de um coto de vela empoeirado. Nestes momentos sentia-se grande, a maior mulher do mundo, capaz de o dominar com um sinal de dedo. Sonhava acordada, entre leituras de feitiços, com lamas movediças, areias revoltas e trovões. Porque os trovões assustam os meninos. Odiava Belani entre cada sonho, que para ela não existiam pesadelos. Como a queimava o amor que Belani falava, expirava, transpirava... e era gratuito. Era um amor tão gratuito que lhe tocava também a si, abrindo-lhe chagas ardentes entre as dobras da sua roupa fúnebre. Tinha que se livrar de Belani. Maria alimentava-se de terrores e choros de crianças e com a bela por perto a fome batia-lhe à porta. Os seus poderes mágicos estavam enfraquecidos pelo dia a dia de beijos e risos e só um plano bem pensado, maquiavélico, infalível a podia salvar de uma vivência de alegria que desacelerava o bater do seu coração. O plano estava quase pronto. Sem dizeres nem poções, sem fumos, raios ou clarões, poeiras e patas de rã. Era um plano normal, tão normal que não podia deixar de dar certo.

Toc, toc, toc...
- sim?! Entre! Cantarolou a doce Belani.


Um homem grande de músculos trabalhados entrou, trazendo pela mão a menina dos lacinhos rosa. Deu um agradável bom dia em tom de masculino e o seu olhar deteve-se em Belani, que imediatamente se sentiu, sem saber porquê, algo intimidada com a brancura dos seus dentes perfeitos, emoldurados por um sorriso aberto e aparentemente franco. Olharam-se fixamente nos breves segundos que passaram e atentaram ambos na menina dos lacinhos rosa, que dizia:

- Olá Belani! Este é o meu pimo. Esclareceu. - Estava a tabalhar em Fança, mass agora veio para Portugal por unss temposs. Parexe que vem de fériass, não é ? Perguntou.
- Não é bem, queria piminha. Respondeu o jovem senhor com carinho, imitando o tom da menina. - Vou estar mais algum tempo do que umas simples férias.
- Olha, esta é a Belani! Interrompeu a pequenita. - É muito bonita e meiguinha. Poxo ir axinar o meu nome Belani?

Belani corou como nunca. Sem saber porquê. Respondeu gagejando
à menina dos lacinhos rosa, qualquer coisa que significava um sim. Enquanto a menina assinava o seu nome no quadro de papel de cenário onde todos haviam desenhado uma grelha de dupla entrada, Belani escondia timidamente o olhar entre os sapatos negros do visitante e o rosa dos lacinhos.

- Peço desculpa pelo atraso. Com a minha chegada tardia de ontem a piminha deitou-se tarde.
A excitação também não ajudou a adormecer depressa e foi quase cruel ter que a levantar.
- Compreendo! Disse Belani educadamente. - Não tem que pedir desculpa. Estamos ainda a organizar-nos para a construção do vulcão.
- Do vulcão? Eles não são um bocadinho pequenos para construi um vulcão? Admirou-se o visitante dos sapatos pretos.
- Não, de todo! Disse Belani descontraindo-se com o tema que lhe era querido. As crianças são muito inteligentes. Este grupo em especial. Fazemos muitas actividades que ajudam a crescer, pensando e reflectindo sobre o mundo que nos rodeia.
- E fazem actividade física? Quiz saber o senhor dos músculos belos.
- Sim, sim, claro! Explicou Belani. - Trabalhamos os músculos para os meninos aguentarem o peso da cabeça à medida que vão aprendendo mais coisas e as vão retendo no cérebro. - E riu-se.

O jovem correspondeu ao sorriso. Despediu-se dizendo que seria ele a vir buscar a menina dos lacinhos rosa. Mais logo, lá pelas quatro e meia...

Belani sentiu um agradável torpor no corpo e um aperto na boca do estômago. Distraíra-se um pouco e a sua atenção foi recair na velha maga, que sentada no canto mais triste da sala, sorria. Belani olhou-a duas vezes, porque não se lembrava de a ver sorrir. Mas o estranho é que aquele era um não sorriso... Um não sorriso? Isso não existe! Que disparate estava para ali a pensar. Devolveu à colega um esgar de lábios envolto na sua aura de benevolência e voltou-lhe as costas, sem lhe querer ler o olhar e atentando de novo nos seus meninos, que começavam já a inquietar-se perigosamente. Uma entrada tardia na sala causava sempre alguma perturbação.

Nas semanas que se seguiram Belani esperava anciosamente cada entrada da menina dos lacinhos rosa. O toc, toc da porta tinham um som mágico que a percorria da cabeça até aos pés, antecipando a entrada do corpo másculo do piminho. Era assim que lhe chamava intimamente. Com o tempo deixou a sua atitude tímida e começou a mostrar-se mais irreverente. Por vezes também lânguida e insinuante, algo que jamais ousar ser. As crianças esboçavam sorrisos escondidos à escancara e cantavam:
- "Namorados, primos e casados, foram à igreja beber uma cerveja, o padre arrotou e a noiva desmaiou"...
De seguida largavam em gritos perseguidos pelo jovem atlético que saltava mesas e cadeiras sem nunca tropeçar, ante o olhar de orgulho da Belani. Como era interessante aquele jovem desportista. Como ocupava os seus sonhos, as suas manhãs e cada anoitecer. Como o esperava durante o dia e o encontrava em memória durante a sesta dos meninos.
A velha bruxa mantinha-se intrigantemente quieta, como se os laivos dissimulados de amor a acometessem a um estado de não existência. Já quase não saía do canto onde dominava a sala com olhos atentos e nublados. Parecia que cegara repentinamente, porque já não se lhe via a menina do olho As crianças não se atreviam a chegar-lhe perto e Belani andava tão feliz que nem dava pela sua presença. Apenas a pele da velha reluzia. Parecia rejuvenescida, mais lisa e estranhamente inodora.

continua

25 comentários:

Vício disse...

vou ler esta história logo à noite para dormir :D

Tia Cunhada disse...

Welcome William Shakespeare!

Delícia.

antonio - o implume disse...

Haja alguém que escreva uma história com um final feliz, o que envolvendo uma bruxa não será tarefa difícil.

Gostei do tom de história de emblara e encantar.

joaquim disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
susana disse...

vício: e vais ter bons sonhos, não é? Linda, pernas longas,... pois... tou-te a bere...

tia: porquê shakespeare?

antónio: ehehehe! Final feliz tem que ser! E vindo de si "gostei" levanta-me a moral. Agora, não faço ideia para onde é que isto vai. O mote sei de onde vem, mas para onde vou logo se verá!

antonio - o implume disse...

Deixa que seja a história a conduzir-te...

susana disse...

Vai ser antónio.

Gi disse...

Ora, Bela Amiga, então cá fico À espera do resto; adoro histórias de encantar.

susana disse...

Gi: seria um bom trocadilho, Bela Amiga, mas Belami é como o meu XY chama à menina que inspira esta história. Ele é que faz um trocadilho extraordinário com o nome dela!
E eu nem tinha dado conta desta elação, confesso!

OUTONO disse...

Quero mais...

Ti disse...

Fico à espera :)

susana disse...

Calma, tem que baixar a inspiração!

Tia Cunhada disse...

Su, quando ficares riquinha como a J. K. Rowling vamos às comprinhas, ok?
Vai juntando para publicar. Esta história merece!
Tal como o Outono; Quero mais!

susana disse...

O meu pseudónimo vai ser Rowling Water. Gostas Tia?

Tia Cunhada disse...

Amazing! Agora serei Rowling Water Sister in Law. Amei...

susana disse...

Até que enfim que somos uma família bem!

couveroxa disse...

Li com cuidado e respeito. A coisa parece que vai. Será que a pequenada percebe isto tudo? Ou é uma história para pequenos contarem e grandes sonharem?

susana disse...

Olá couve roxa. Sabes que era para ser uma história infantil. Vai ser em jeito de história de embalar, como disse a donagata, mas segui o conselho do antónio e deixei-me ir. Agora já não sei para quem isto é. Para a criançada tem que ser muito bem contado e mastigado.
Já nem sei...

susana disse...

Já agora... porquê couveroxa?

couveroxa disse...

E porquê? Bom em primeiro porque a couve roxa estufada adquire melhor sabor se for cozinhada antecipadamente e reaquecida antes de servir, isto, naturalmente, pra quem gosta de umas coives.

Depois vem a questão da estética escultural atlética-o-abdominal muscular, sendo que uma dose de Couve roxa tem perto de 0 g de gordura.

Isto porque participa na fórmula termogénica para a perda de peso, e outras, como pneus, gorduras, obesidades, barrigas, peitos descaídos (nos homens), barbelas, lóbulos inchados (o que se diz às amigas) e outras tantas que tais.
Para quem é vegetariano sabe apreciar isto tudo e sabe ao que me refiro. Aos amantes do coração porque também é conhecida por couve coração e aos ambientalistas porque as suas flores são perfeitas, dispostas numa inflorescência que é um rácimo. O fruto é uma síliqua.

E pronto, penso que já chega.

susana disse...

Eu já adorava couve rocha. Agora sou uma amante consciente! Ainda bem que perguntei. Ainda bem que respondeste.

Tia Cunhada disse...

Parece que a linda e doce Belani está a despertar para as coisas com interesse que esta vidinha tem!
Não tarda e os meus sobrinhos começam a fazer as perguntas difíceis :-)
- Mãe, o que é um "torpor no corpo"?

susana disse...

:) ai tia...

Tia Cunhada disse...

- "Namorados, primos e casados, foram à igreja beber uma cerveja, o padre arrotou e a noiva desmaiou"...
Isto é cantarolice dos meus lindos XY e XX! Ai é, é.

nando disse...

Atão, mas deixarama velhota a reluzir há dois meses!?... Não admira que ela rejuvenesça...
;-)