
"- Extra, extra, end of Buda Story, extra! "
The water door is open. Please breathe. I help you.


A propósito de eu ter dito que ia falar de cintos e braçadeiras...
A pior solidão é a que se vive acompanhado





História do cão que não tinha casa
Era uma vez um cão tão pequeno, tão pequeno, tão pequeno que até parecia um rato. A Dona tinha-o trazido para casa era ainda cachorro. Apesar de peludinho e encantador, não crescia e rapidamente a senhora se apercebeu duma nanisse persistente que a irritava. Foi tamanho o seu desencanto que rapidamente deixou de lhe cuidar do ninho, de o alimentar a horas e de lhe dar afecto. O seu passatempo favorito era varrer-lhe para cima, enquanto berrava:
- Sai-te daí que não vales nada. Com esse tamanho ridículo mais pareces mas é um rato!
Triste e mal alimentado, o cachorro definhava de dia para dia e quanto mais feio ficava, mais a dona o maltratava, até, por fim, um dia se decidir a pô-lo da porta para fora. Foi coisa fácil, em vez de varrer o lixo para cima do cão, varreu-o para a soleira da porta, junto com o animal. Logo que o conseguiu atirar para a rua, bateu a porta com força e trancou-a com a chave, gritando:
- Nunca mais te quero ver.
O tonto, mesmo alvo de tanto rancor, rondou a casa 100 vezes, à procura de um buraco para entrar. Não gostava da dona, é certo, mas não tinha para onde ir. Depois de tanta infelicidade, tinha sido abandonado!
Sem mais opção senão a de fazer-se à vida, caminhou largas horas sentindo-se o cão mais infeliz do mundo. Primeiro, teve extrema pena de si. Roçou o lombo em cada esquina, relembrando a perna da mesa da que já não era a sua casa e até o cabo da vassoura da antiga dona. Depois começou a ficar cansado de ter pena de si mesmo e decidiu arranjar um amigo. Não sabia bem o que era um amigo. De facto, não sabia mesmo o que era um amigo, pois nunca tinha tido nenhum. Também duvidava se alguém quereria ser seu amigo, dado aquele seu estranho aspecto de rato.
A fome já apertava há largas horas quando o nosso cão abandonado começou a avistar, bem ao longe, um vulto de algo que lhe era desconhecido. Parecia mesmo grande... Encheu-se de coragem e seguiu na sua direcção, pensando que, se não tivesse medo, iria encontrar o seu tão desejado amigo. Se bem que não soubesse o que era um amigo, sentia que seria algo de bom. Estava já a poucos metros de se encontrar com o desconhecido quando se apercebeu tratar-se de um ser da sua espécie. Um canzarrão imponente, preto luzidio, de ar feroz e tremendamente assustador. A certa altura sentiu-se tão amedrontado que sentiu necessidade de fugir, mas depois lembrou-se que também ele tinha um ar estranho, de um rato que não era, e decidiu ficar. O gigante de alcatrão lá veio ao seu encontro e, com um ar para lá de muito importante, cheirou-o avidamente.
- Cheiras mesmo mal, ó rato. Que andas a fazer por aqui? Não sabes que tens que me pedir autorização para circular por estas bandas?
- Não sei não, disse o cãozito, encolhendo-se.
- E não sabes porquê? Enfureceu-se o outro.
- Porque não sei muita coisa. A minha dona pôs-me na rua...
- E pôs-te muito bem. Para que serves tu? És feio e tens ar de rato. Uma vergonha para a espécie. Vai-te daqui depressa antes que te abocanhe e faça de ti o pitéu do jantar!
Ao ouvir tal barbaridade, o nosso cão desatou a correr, sem sequer olhar para trás, pensando porque é que um ser da sua espécie tinha sido tão mau consigo. Devia ser mesmo feio, pensou. Por sorte, para o animar, algum humano pouco asseado atirou uns restos de comida pela janela, que quase lhe caíam em cima. Primeiro olhou-os um pouco enojado, mas a fome era tanta que os comeu de olhos fechados, sem sequer os saborear, e sentiu, no final, que havia comido um verdadeiro manjar dos deuses. Que discernimento lhe deu aquela comida. Agora já se sentia mais capaz de pensar. Não queria acreditar que no mundo só houvessem pessoas e bichos maus. Por isso, decidiu, com toda a sua força, fazer da busca do seu amigo a saga da sua vida.
Com a barriga recheada e o pensamento ordenado, chegou o cansaço, a bater-lhe persistentemente nas pestanas. Afinal a caminhada fora longa. Estava já muito longe da única casa que conhecera e onde sabia que não voltaria a ser acolhido. Tratou, pois, de procurar um poiso para o corpo, o que facilmente encontrou, dado o seu pequeno tamanho. Alojou-se o mais confortavelmente que pode junto de um arbusto de ar saudável, num pedaço de quintal ajardinado. Adormeceu com os sentidos alerta, como era típico da sua raça, pois lá por parecer um rato, era sabido que não o era. O sono, contudo, não foi longo. O som de um roçar suave, muito suave até, flutuou ao encontro do seu ouvido e sussurrou-lhe a ordem de acordar. Abriu primeiro um olho, logo depois o outro, e levantou-se de um salto, tal não foi o seu espanto, a olhar para o animal mais estranho que já vira. A dois passos do seu focinho encontrava-se uma bola de espinhos portadora de um nariz afilado. Farejou uma vez, farejou duas, e o cheiro confirmou-lhe a novidade que os seus olhos já haviam detectado. Estava mais uma vez tentado a desatar a fugir, quando se recordou que tinha que encontrar um amigo. Por isso, ali ficou, preparando mentalmente uma frase bonita e simpática para encetar a conversa.
- Au, au... au, au, au! Disse ele, com a voz mais doce e suave que conseguiu.
E que surpreso ficou logo a seguir. O focinho pontiagudo desapareceu e os espinhos eriçaram-se. Aquilo que antes lhe parecera um bicho, era agora um montito imóvel no meio da terra cuidadosamente ajardinada. Nada se movia! Ao ver tal resposta à sua ladradela cantada, o nosso cãozito ficou logo muito aflito.
- Ai, que fiz eu... Assustei-o, foi o que foi. Eu sei que sou pequeno, mas sou maior do que ele. Porque falei eu tão alto?
O cãozinho gania de tristeza e no pensamento corriam-lhe mil imagens e pensamentos sobre a forma de ajudar a bolinha de espinhos desconhecida.
- Já sei! Já sei! Vou calar-me. Vou aproximar-me devagarinho dele e sussurro-lhe ao ouvido que sou seu amigo, que não lhe quero fazer mal. É que, se calhar, também o puseram fora de casa...
E se assim pensou, logo de seguida o fez. Mas está-se mesmo a adivinhar o final. Ao sentir o cão a aproximar-se, o ouriço-cacheiro eriçou-se ainda mais e, quando o focinho estava mesmo quase a tocar-lhe, deu-lhe uma grande espetadela, a mais forte que conseguiu, para se defender do que julgava ser uma grande ameaça.
- Caim, caim, caim... chorou o cão. Que dor tão forte sentiu. Nem a vassoura da antiga dona alguma vez lhe tinha provocado tamanha dor!
Não teve outro remédio senão desatar a correr dali para fora, pensando que tudo no mundo parecia ter um lugar, menos ele, que perdera o seu. Desesperado e tendo a dor alugado o seu focinho, ficou mesmo sem saber se devia procurar outro sítio para dormir, ou se continuaria a vaguear noite fora, alimentando a sua tristeza com pedacinhos da lua, que pareciam estar a cair-lhe em cima. Nesta indecisão, acabou por seguir vagueando, vagueando e vagueando, deambulando a sua melancolia sob o embalo da lua.
A esperança foi-lhe devolvida com o raiar do Sol. Que bonito! Nunca tinha visto nascer o sol... O Sol, era grande e belo. Era bondoso, pois distribuía o seu calor e a sua alegria por tudo e todos, sem nunca parecer aborrecer-se. O cãozinho desejou ser como o Sol. Um gigante de bondade, capaz de levar a felicidade a todos. Desejou raiar o coração dos menos bons e colocar-lhes uma pitadinha de açúcar, daquele que ele lambia à socapa na sua antiga casa, sempre que antiga dona estava distraída e a vassoura a larga distância, o que lhe adoçava o espírito, mesmo quando mal tratado.
Olhava o Sol assim apaixonadamente quando ouviu:
- fffffff... ffffff....
Alguém soprava furiosamente na sua direcção. Porquê não sabia, pois apenas estava a admirar o Sol.
- fffffff... ffffff...
Voltou-se para ver quem estava tão zangado consigo e viu um animal seu conhecido. Um delgado gato Siamês que se preparava para lhe saltar em cima a qualquer momento. Mediante o quadro pintado à sua frente, uma catadupa de imagens acorreram-lhe à memória. Imagens não muito boas, de um quintal vizinho, de um outro Siamês, com um tremendo mau feitio e garras muito afiadas. Viu-se a correr desenfreadamente, a escorregar na relva molhada e a sentir uma pata de unha em riste a tocar-lhe a cauda. Era tão real o seu pensamento que arfava sem pensar. Vista de fora, a cena era digna de um qualquer filme de cowboys americano, daqueles em que ficamos estranhamente à espera de ver qual o primeiro pistoleiro a sacar a arma, uma vez que sabemos exactamente quem é que vai ser atingido. A diferença é que aqui não havia armas, senão as dadas pela própria natureza e tudo podia acontecer...
Depois de se admirarem durante um longo minuto, o gato acalmou-se um pouco e o cão, acautelando-se, aproveitou para recuar uns passos. E a conversa começou assim:
- Ó tu aí diz-me quem és
Que não tens ar de coisa fina
A meus olhos pareces um rato
E ao olfato és de raça canina
Tem minha doce cabecinha
Uma grande confusão
Pois nem olhos, nem nariz
Chegam a conclusão
Ao ouvir um falar tão musical, o pobre do cão ficou sem saber o que responder. Mas ele era bem-educado e jamais deixara alguém sem resposta. Pensou também que um gato com um falar tão delicado havia de ser bem sensível e, apesar do encontro agreste, até poderia muito bem vir a ser seu amigo. Bom, talvez... que se a má disposição era crónica e coisa de raça, dado o exemplo do ex-vizinho, pouco haveria a fazer. Ainda que cheio de dúvidas, deixou a esperança aflorar uma vez mais e, com um ar meio tontinho, disse assim àquele gato:
- Sr. gato, ou melhor, gatarrão
É tão formoso o seu falar
Será que quer ser meu amigo
E deixar-me consigo ficar?
Se sou um rato ou um cão
É coisa que não importa...
E já não pode continuar.
- Não importa, não importa, soprou o gato com toda a força, continuando:
Quem és tu para alterar
A força da natureza
Se fores um cão eu fujo
Se rato, ponho-te na mesa.
Define-te lá ó sapo!
Sapo! Sapo! Nunca ninguém lhe tinha chamado sapo. Mas que grande humilhação. Aquele presumido do gato não era nada de confiar. Ainda que viesse a ser seu amigo, haveria de lhe levar tristezas para casa todos os dias. Com tal ar de importância e altivez, não haveriam de ser muitos a gostar dele. Por outro lado, aqueles que gostassem, também haveriam de ser todos da mesma laia, uns arrogantes! Estava mesmo zangado o nosso cão. Tão zangado, tão zangado que, fazendo jus à sua raça, soltou a ladradela mais forte que pode e pôs o Siamês a correr com o rabo entre as pernas, gritando de seguida:
- Sai-te e vai-te de vez
E não te atrevas a voltar
Quando conhecer um Siamês decente
mando-to para te ensinar a ser gente.
Ora esta última saíra-lhe bem. Disse-a com todo o sentimento e seguiu a sua viagem em direcção a nada, remoendo que não era um sapo, nem mesmo dos encantados. Inicialmente, aquele encontro parecera-lhe muito mau, como todos os anteriores, mas bem vistas as coisas e pela positiva, ficara a saber muito bem quem não queria para amigo. Donos de ruas, espinhosos e gatos presumidos não faziam o seu género. Definitivamente, não faziam mesmo nada o seu género!
Mais umas horas de caminhada por entre espaços vazios de carinho e uma barriga a adelgaçar acabaram, contudo, por lhe tiraram alguma da pouca força que o encontro anterior lhe havia dado. Voltou-se de novo para os cinzentos da sua vida e ganiu o seu pobre destino, lamentando ter nascido. Caminhava agora muito cabisbaixo, com as suas patitas a pedirem licença entre si para se movimentarem a ritmo de caracol. Não sabia chorar. Se soubesse, era capaz de aliviar um bocadinho, mas um cão, mesmo com ar de rato, não chora, gane e lamenta-se ao ar vazio, mas não chora.
Triste sina a deste cão...
- Ai, ai, ai... Ai, ai, ai..., Ai, ai... nada aqui, nada acolá, já ninguém deita nada que se coma para a rua? Ó amigo, por acaso não viste aí um pedacito de nada que se coma? Perguntou um bicharoco baixinho e rastejante.
- Estás a falar comigo? Perguntou o cão.
- Estou pois! Tenho cá uma fome!
Amigo? Mas que baralhado ficou o cãozito com tamanho à-vontade. Quem falava assim facilmente em amizade não havia de ser de confiar. E que feio animal! Que ar tão... pouco lavado. Que era aquilo que se movia à sua frente? O seu lado educado, lá o impeliu a responder, mas sem grande convicção.
- Não vi nada não e, por acaso, também tenho alguma fomita.
- A sério? Então toma lá estes ossitos, que eram para eu roer mais tarde, se a fome apertasse muito. Tinham uma carnita agarrada, mas já a comi toda. Se soubesse que te ia encontrar tinha-te deixado um bocadinho.
Aquele monte de pelo preto, de focinho afunilado, rabo abastado e cauda de estender roupa devia estar a gozar com ele. Tinha fome e dava-lhe da sua comida? Era mais que certo, estava mesmo a tomá-lo por bobo. Sentia que devia ser cauteloso.
- Agradeço-te. Roer um ossito é capaz de ajudar qualquer coisa. Tens a certeza que não te fará falta?
- Tenho, tenho! Estou certo que acabo por encontrar qualquer coisa. Olha lá, tu não és destes lados, pois não? Como é que te chamas?
Como se chamava? O seu nome... Quase não se lembrava que tinha nome. Bem vistas as coisas, nunca ninguém tinha parado para lhe perguntar o nome. Timidamente e ainda um pouco a medo, respondeu:
- Buda, o meu nome é Buda.
- Giro! Gosto! Buda. Eu chamo-me Touças, muito prazer.
- Touças? Perguntou Buda, é nome que nunca ouvi.
- Pois, imagino que não. Touças foi o nome que a minha mãe me deu quando descobriu que eu gostava muito de toucinho. Tinha-me dado outro nome quando eu nasci, mas depois de me começar a chamar este esqueceu-se dele por completo. Touças é giro. Eu gosto!
- Por acaso é muito engraçado, disse o Buda, começando a simpatizar com o bicho.
- De onde vens tu e o que fazes aqui? Iinsistiu o touças.
Buda já estava tão farto do seu destino triste que esteve quase para encenar uma história qualquer, mas depois pensou que não seria lá muito bonito fazê-lo com um bicho que até lhe tinha perguntado o nome e que estava a ser tão simpático. Lá tomou coragem e contou de novo a sua saga.
- Eu fui posto fora de casa. A minha dona dizia que eu era tão pequeno que mais parecia um rato e pôs-me na rua.
- Um rato? Um rato? Olha lá, a tua ex-dona por acaso via mal? Perguntou o Touças.
- Hããã... Acho que não. Porque perguntas?
- Olha lá, tu por acaso achas-te parecido comigo?
- Parecido contigo? Claro que não, mas que pergunta tão estranha.
- Estranha porquê? Se fosses um rato serias naturalmente parecido comigo. Terias as tuas características, que te tornariam diferente de mim, mas não deixarias de ter traços da minha espécie.
O Buda estava completamente baralhado. Tão baralhado que disse:
- Não quero crer! Então tu também és um cão parecido com um rato?
- Um cão, eu! Exclamou o Touças.
- Não és? Insistiu Buda.
-Mas que grande tontice! Olha lá, tu já alguma vez viste um rato?
- Bem, na verdade não... Mas imagino que se pareça muito comigo.
- Enganas-te, meu caro. Eu aqui que me vês, sou um rato e já me disseste que não te achas nada parecido comigo.
Um rato! Buda ficou completamente aparvalhado. Andara tanto tempo a pensar que os ratos se pareciam consigo que não podia acreditar nas diferenças que os seus olhos lhe mostravam. Não sabia bem se havia de rir ou chorar, mas, como chorar não conseguia, desatou-se a rir à gargalhada, acompanhado pelo Touças, que dava sinais de ser amigo de boa pândega. Depois de muito gargalharem, agarrados às barrigas, olharam um para o outro, mal conseguindo falar. De cada vez que tentavam começavam de novo a rir-se. Por fim, o Buda lá se acalmou e disse:
- Tenho que te pedir desculpa. Sempre achei que um rato fosse um bicho horrível.
- Bem, é natural, afinal puseram-te na rua por seres parecido com um.
- Posso fazer-te outra pergunta
- Manda, disse o Touças pacientemente.
- Porque é que me chamaste amigo?
- Bem chamei-te amigo assim como te chamaria "ó pá". Amigo é uma coisa muito séria, nós é que, por vezes, gostamos de brincar com o verdadeiro significado das palavras. Mas olha que tu tens pinta de bom amigo!
- Achas? Perguntou o Buda, verdadeiramente maravilhado.
- Acho não! Tenho a mais absoluta certeza! Olha e, a despropósito, onde vais tu ficar esta noite?
- Bem, não tenho onde ficar...
- Não há problema, anda, ficas comigo.
Buda não cabia em si de contente. Tinha encontrado um companheiro simpático que lhe ia dar abrigo e tudo! Só não tinha percebido se eram ou não amigos. Mas também não era importante de momento. Já há muito tempo que não sentia o sorriso aflorar-lhe ao focinho e mesmo com a barriga a orquestrar violentamente (deviam ser os pedacinhos do osso que comeu a bater entre si...) sentia-se particularmente bem. Correram desenfreadamente por um bom bocado, com o vento da madrugada a pentear-lhe as orelhas, até chegarem a uma rua escura e mal arranjada. Parecia uma matrona de bairro, vestida de trapos e de farto avental atado à cintura. Que sítio para morar, pensou Buda...
- Chegamos, é aqui mesmo, disse o Touças de rompante, temos de entrar no terceiro buraco do muro em frente. Consegues ver?
- Sim, sim, só não sei se caibo. Parece-me pequeno.
- Não te preocupes. Cabes de certeza. Não era à toa que a tua antiga dona te dizia que mais parecias um rato. Pelo menos em tamanho, a mulher lá tinha a sua razão.
Buda Sorriu.
Touças entrou elegantemente no buraco, qual ginasta executando o seu melhor elemento num exercício de solo. Buda, um pouco mais desajeitado, lá deu um saltito que o colocou do outro lado do muro, passando a avistar um conjunto de ruínas que de romanas nada tinham, nem árabes, nem nada. Era um miserável conjunto de pedras sujas, farrapos e novelos podres de algodão. Um nojo, pensou o cão. Mas não o disse, porque jamais queria magoar o Touças. Aliás, lá diz o velho ditado: quem dá aquilo que tem, a mais não é obrigado!
Em resposta a um pequeno som agudo produzido pelo Touças começaram a surgir, de tudo quanto era lado, fartos magotes de ratos, ratinhos e ratazanas, todos muito mal amanhados, mas com um ar absolutamente sadio e de aparência assaz resistente.
- Olá malta, cumprimentou o Touças, trouxe um amigo. Este aqui é o Buda. Foi posto fora de casa por ter tamanho de rato. Convidei-o para passar uns dias connosco.
- Ora sejas bem-vindo, amigo do Touças. Quem é amigo de um rato, é amigo de todos os ratos do mundo. Arranja um canto para ti, acomoda-te o melhor que puderes, que pronto nos vamos juntar para ver o dia raiar. Logo vemos se o pequeno-almoço será farto, mas seja ele o que for, há-de chegar para ti.
O último a falar foi um rato gordo, com ar de avô mandão e protector, daqueles que dá um Epa e um cachaço, não vá o neto esquecer-se e engolir a chiclete. Parecia ser o chefe dos roedores...
- Anda Buda, tenho um canto protegido para ti mesmo ao meu lado. Vamos rápido, para depois podermos tomar o melhor lugar no centro do acampamento.
Buda correu atrás do amigo e foi tomar nota do espaço que lhe estava destinado. Não estava mal, parecia um velho berço sem cabeceira nem pés, mas ali não iria fustigar o vento, nem dançar a chuva, porque uma grande pedra assentava em duas outras e formava um belo tecto. Cansado como estava, apeteceu-lhe acomodar-se o melhor possível no novo ninho e dormir pesadamente. Parece até que adormeceu neste pensamento. Acordou com o chamamento do Toucas e, após um rápido bom dia, que o outro não entendeu, porque não se tinha apercebido da fadiga do Buda, logo correram a juntar-se aos outros ratos, que já se começavam a agrupar para dar vivas ao Sol. Era uma imagem fantástica para o Buda. Nunca tinha visto ninguém dar vivas ao Sol. Também nunca se lembrara disso, mas a verdade é que fazia todo o sentido. Os dias sem Sol eram cinzentos e aborrecidos, húmidos, muitas vezes chuvosos. Os animais ficavam pachorrentos e as pessoas mal dispostas. Por outro lado, quando o Sol raiava, os animais agitavam-se e as pessoas sorriam e falavam alto. A antiga dona até se esquecia de lhe dar com a vassoura. E ele, Buda, gostava muito do Sol.
Ao espreitar do primeiro raio, muito tímido, surgindo pé ante pé, para não acordar de rompante os mais dorminhocos, os ratinhos entoaram em coro:
- Vivas quem és, amigo Sol. Dá-nos lá um dia quentinho, soalheiro, animadinho. Temos muito que fazer e não gostamos que esteja a chover. Hurra, viva o Sol!
Depois desta sonora entrada começaram a chegar outros ratinhos com bandejas de comida. Não daquelas bandejas dos restaurantes, mas outras improvisadas com pequenos pedaços de xisto. O banquete não era dos mais fartos, mas é certo que havia um pouco de tudo. Era um pequeno almoço para todos os gostos, com ovos e toucinhos para os ratos que haviam vindo de terras britânicas, um belo pão com manteiga, aconchegado com um pingo de leite, para os mais Portugueses e até pão com azeite e tomate para os que viajaram do Sul de Espanha. Buda, que não era esquisito, lá foi provando um pouco de tudo, aproveitando a sua primeira estada naquele que, agora, já lhe parecia um Hotel de 5 estrelas. Depois de todos saciados, o rato mais velho bateu com as patitas da frente numa lata velha e todos se foram colocar à sua frente. Buda, sem saber bem o que fazer, seguiu o Touças e sentaram-se ambos num lugar de algum destaque. Para sua surpresa, foi a si que o rato mais velho dirigiu a palavra.
- Pois mais uma vez te dou as boas vindas, Buda, meu bom amigo do Touças. Ora conta-nos lá de novo a tua história e como vieste aqui parar.
Ser reconhecido com amigo do Touças encheu Buda de orgulho e deu-lhe a coragem que precisava para contar, tintim por tintim, a aventura que lhe ocupava a cabeça. Lá falou ele de novo da antiga dona, à qual, com a ajuda de alguma imaginação, atribuiu poderes de bruxa, do canzarrão negro e feroz que se atravessou no seu caminho, no ouriço-cacheiro, no gato Siamês, armado em muito erudito, enfim, lá falou ele de tudo.
Findo o relato, o rato mais velho juntou uma prole de outros ratos e conjecturaram em sussurro até um deles, por ordem do soberano, se decidir a falar:
- Caro Buda, começou, muito formalmente, a tua história comoveu-nos e porque és uma alma nobre, decidimos ajudar-te a dar uma lição a essa tua ex-dona desmiolada. Amanhã, bem cedo, partiremos em demanda de justiça. Entretanto, hoje, trata de conhecer todos e de descansar bem.
Buda ficou num misto de exaltação e pavor. Voltar a casa era um sonho querido. Não fora feliz, isso era certo, mas não se conseguia libertar da memória dos cheiros... Fechava os olhos e sentia o cheiro do seu ninho. O cheiro a canela impregnado na dispensa, onde tantas vezes se escondia. O aroma do pão que a padeira colocava diariamente na porta... hummmm... quase que podia saboreá-lo! Passou o dia neste estado de encantamento, alimentando a cada minuto o seu mundo imaginado, e conhecendo tantos ratos quantos podia, tal como lhe haviam dito. Por fim, com o cair da noite, lá conseguiu descansar. Dormiu muito sossegado, porque o seu amigo Touças, sob o pretexto do seu ninho estar frio, acabou por se ir instalar numa nesga do seu lugar, mesmo em frente ao seu focinho, que lhe soprava ritmicamente um ar deliciosamente quente.
A colónia toda acordou antes do raiar da aurora. O acampamento estava com ar de campo militar. Todos pareciam saber bem o que fazer. As ratazanas preparavam farnéis, os mais pequenos ajudavam na preparação dos instrumentos de combate e o grupo de comando estava solenemente reunido, preparando o momento da debanda. Ao toque da lata todos se agruparam ordenadamente e deram início à orgulhosa marcha de partida, a marcha dos vitoriosos. Buda foi mandado seguir à frente, para orientar o caminho, que era bem mais curto do que aquele que, por lapso, lhe ficara registado na memória.
Em pouco mais de duas horas chegaram ao seu destino e, resguardados de olhares alheios, prostraram-se em frente da casa que outrora fora de Buda. Nesse momento, o rato mais velho ordenou: Buda, ficas aqui, de retaguarda, e só sais do teu posto se alguém te chamar. Buda ainda tentou argumentar que também queria ir, mas o olhar de imperador do rato aconselhou-o a ficar quieto.
A organizada prole dos ratos começou então a deslocar-se no sentido da casa, com vista ao seu assalto. Quatro grandes grupos de roedores distribuíram-se pelos quatro flancos da casa. O grupo da frente, acrobático e bem treinado, realizou uma pirâmide em frente à porta principal e uma vez estando o monte em perfeito equilíbrio, o voador lá do alto pressionou fortemente a campainha. Passados uns quantos segundos veio atender à porta uma feia mulher envolta nuns andrajos, aos quais era difícil chamar roupa. Era feia e carrancuda e tinha um falar catarrento e tenebroso. Antes de abrir, perguntou, no seu vozeirão ríspido:
- Quem é?
Os ratos, não podendo responder, voltaram à campainha.
A mulher insistiu:
- Quem é, que é que quer?
E a campainha tocou de novo. A mulher, irascível, e já muito mais irritada do que no seu estado natural, abriu a porta de rompante e, antes que os seus olhos se apercebessem do que se estava a passar, os ratos entraram para dentro de casa e foram abrir as janelas e as portas dos fundos, para os restantes grupos poderem entrar. A mulher apenas percebeu uma mancha que se moveu para o interior da sua casa e antes de ter tempo para perguntar o que é isto, já os ratos tinham tomado conta de tudo.
- Aiiiiiiiii... Aiiiiiiiiii... Socorro! Alguém me ajude! Estou tomada de assalto por um bando de ratos nojentos. Socorro!
A mulher, desesperada, mas lutadora, correu a buscar a vassoura para expulsar os ratos que, estrategicamente se dispersaram pelas diversas divisões da casa. Tinham a sua arma principal já bem preparada. Cada grupo de dois segurava um fino cordel pela boca. Ao sinal do mestre, colocava-se em frente à mulher, que, não vendo o fio, tombava pesadamente no chão. Andaram nesta algazarra para mais de meia hora, até que, a mulher, exausta e farta de tanto trambolhão, desistiu da sua defesa e fugiu de casa para fora, gritando ó da guarda, sem que ninguém lhe desse grande atenção, pois parecia meia louca. Na sua corrida desenfreada passou por Buda e olhando para ele gritou:
- Fica tu com isto, ó rato, eu aqui já não tenho lugar e vou para não mais voltar!
Aiiiiiiiii..... Aiiiiii....
Buda não queria acreditar. Os seus amigos haviam conseguido! A casa era de novo a sua casa!
Dias passados sobre a invasão, Buda e Touças, amigos inseparáveis, gozavam do belo Sol numa pedra espreguiçadeira do quintal. Buda comentou:
- Ó Touças, tu gostas de festas?
- Se gosto de festas? Gosto lá eu de outra coisa!
- E se nós, logo à noite, déssemos uma festa?
- Bora lá, vou já mandar mensagem à malta.
Foi a maior rave que se viu por aquelas redondezas! Um estouro de festa. Foi roer até não poder mais e, no fim, dormiu tudo lá em casa, que já ninguém tinha condições de retorno. O Touças até arranjou uma namorada girassa, que poderia muito bem vir a ser a mãe dos ratos mais giros do mundo. E ficou a pensar que o Buda também precisava de companhia. Mas essa... é uma história para outra ocasião.
VITÓRIA, VITÓRIA, ACABOU-SE A HISTÓRIA!

Se eu fosse um bola de sabão reflectia-te, para que todos pudessem ver-te e admirar-te. Mas não magoar-te! Porque se o ousassem tentar, eu subia muito no ar, insuflava o meu tamanho e relectia-te ainda mais, em tom de provocação. Depois, gritava em jeito infantil: é minha amiga, não lhe tocas! Depois rebentava e deixava cair o teu ser junto com a minha gota. Entrariamos na terra e haviamos de florir, juntas e de mãos dadas, gemelares e indivisíveis. É assim a amizade...

Na primeira fase do ensino da natação, vulgarmente designada por Adaptação ao Meio Aquático (AMA), é absolutamente necessária a aquisição de três competências que expressam a adaptação da face à água: imergir a face e, simultaneamente, abrir os olhos e expirar activamente.
Porquê?
Por duas simples razões:
1. Um sujeito que "sabe nadar" (ou seja, não se afoga!), numa situação de acidente (queda inadvertida na água) pode afogar-se pelo simples facto de não conseguir ultrapassar a aflição que é ter a face (ouvidos incluídos) rodeada de água. Assusta-se, hiperventila e engole água.
2. Qualquer habilidade realizada com o corpo na horizontal é sujeita a maior arrasto (força oposta ao deslocamento) quando a cabeça está emersa. Por um lado, porque os membros inferiores (MI) afundam quando a cabeça se eleva, ficando o corpo em posição oblíqua. Por outro lado, porque aumenta a área de superfície frontal oposta ao deslocamento*. Não é possível nadar bem com a cabeça fora de água, seja em que técnica for, porque em todas há um tempo de imersão da face que tem que ser respeitado e coordenado com os movimentos, quer dos membros superiores (MS), quer dos MI. Em qualquer das técnicas (à excepção óbvia do nado de costas), a expiração é realizada dentro de água. Se não o for, quando o praticante emerge a cabeça, no tempo que tem para inspirar vai ter que expirar e inspirar, o que aumenta o tempo de permanência da cabeça fora de água, induz maior arrasto e provoca uma descoordenação com os movimentos dos MS e dos MI.
3. Por fim, abrir os olhos é fundamental por uma questão de orientação. A existência de um inestético (salvaguarde-se a opinião pessoal) risco preto no fundo da piscina justifica-se, exactamente, pelo facto de necessitarmos de uma linha de guia para que o nado ocorra em linha recta. Necessitamos, pela mesma razão, dos festões de viragem ("bandeirolas") e do festão de falsa partida (o que se situa sensivelmente a meio da piscina) para sabermos, quando nadamos costas, o quão próximo estamos da parede. É fácil testar esta necessidade. Basta tentar nadar em linha recta com os olhos fechados. O que vai acontecer é um desvio da linha de nado para a lateral direita ou esquerda (depende de qual é o movimento subaquático dominante).
Entendido?
Estou certa que sim!
Assimilado?
Já não tenho tanta certeza… Pelo menos atendendo ao número de vezes que os pais, nesta fase, se insurgem contra os professores de natação porque “o meu filho não gosta de meter a cara na água e o professor obriga-o” e porque “eu não quero que o meu filho nade sem os óculos”, mesmo depois de lhe explicarmos as razões da necessidade de trabalhar esta adaptação logo no início do processo de ensino da natação.
Bom, alguém me faça perguntas. Se não, tratarei de seguir para o passo seguinte: aprender a imergir o corpo em profundidade e a saltar de pé.
E já agora, por favor ponham a água do chuveiro na cabeça das crianças sem mandar fechar os olhos.
*Área de superfície frontal oposta ao deslocamento: é a "quantidade" de corpo que cria resistência ao avanço. Andar de pé para a frente na água é mais difícil do que deslocar-se na horizontal porque a "quantidade" de corpo que cria resistência é maior quando estamos de pé.
Faz pouco mais de uma semana que argui uma monografia de fim de curso deveras interessante. Há já algum tempo que ando a debater que alguns professores de hidroginástica não sabem o que andam a fazer com/na água. Chegou-me uma boa prova às mãos.

Obrigada por teres esperado. Espero que tenhas usado a tua banheira para treinar o teu olhar subaquático. Espero que os teus pais te tenham "despejado" muita água na cabeça e te tenham deixado inundar a casa de banho. Se não, seja, eu trato disso.
Da minha janela vejo o Tejo e penso: será que sabes nadar?