
A pedido de várias famílias (frase sublime!), vou tentar explicar porque é que os músculos não doem a seguir a uma aula de hidroginástica.
Mas (há sempre um mas), é preciso, primeiro, digerir os seguintes pressupostos:
1. O músculo contrai de três formas distintas:
a. Concêntrica - a força desenvolvida supera sempre a carga aplicada. Por exemplo, elevo um halter. As fibras (células) musculares contraem sem se distender.
b. Excêntrica - a força aplicada não supera a carga aplicada, mas controla o movimento. Por exemplo, o halter que tenho na mão é muito pesado e eu não estou a conseguir suportar o seu peso e, em consequência, vou estendendo o braço suavemente, aguentando a carga o tanto quanto posso. Neste caso, as fibras musculares contraem, mas distendem-se. Este fenómeno de distensão das fibras musculares induz lesão das mesmas (as fibras estão a ser esticadas enquanto contraídas , o que constitui uma agressão mecânica grande). Em consequência da lesão, o conteúdo celular passa para o espaço intersticial (espaço entre as células) e daí para, por exemplo, a corrente sanguínea. Este conteúdo celular vai dar o alerta necessário ao sistema nervoso para que se inicie o processo de regeneração muscular e vai estimular os terminais nervosos da dor para o corpo "ter juizinho" e não provocar mais estragos, ou seja, vai inibir o movimento que causou a lesão.
A contracção excêntrica ocorre, também, por oposição à concêntrica, por forma a estabilizar os pontos articulares que servem de origem ou inserção ao músculo (ver mais abaixo).
c. Isométrica - Nesta contracção não há movimento. Os músculos contraem mas os segmentos não se movem. É uma contracção fácil de observar nos culturistas, que contraem os músculos, mantêm a contracção e não se movem. É um tipo de contracção que aumenta muito a tensão arterial (pela compressão continuada dos vasos sanguíneos) e é contraindicada para hipertensos.
Ora:
Na hidroginástica, todos os movimentos que realizamos vencem a resistência da água. Logo, a contracção é concêntrica.
Por outro lado, a estabilização que é da responsabilidade da contracção excêntrica é muito coadjuvada pela própria resistência da água. Um exemplo simples. Em terra, quando nos agachamos, os músculos posteriores das coxas contraem, de forma concêntrica, para que se dê a flexão dos membros inferiores. Os músculos anteriores das coxas também contraem, para estabilizar a descida, porque se não o fizerem caimos redondos no chão e também começam a doer se prolongamos o tempo da flexão (experimentamos esta sensação quando não nos podemos sentar na sanita!). Esta contracção, responsável pela estabilização do movimento, é excêntrica. Ora, na água, existe a chamada força de impulsão, que é uma força que nos puxa para cima, pelo que, a dificuldade que sentimos nesta posição em terra desaparece na água. A própria água inibe a flexão dos membros inferiores. A contracção concêntrica dos músculos posteriores da coxa tem de ser mais eficaz e a excêntrica nem é necessária.
Ora (outra vez):
Se, na água, basicamente não há contracção excêntrica, basicamente não há agressão mecânica à fibra muscular, não há lesão, logo, não há dor.
Pronto! Espero que deixem de me chamar intrujona!
P.S. - isto só vira uma intrujice pegada se introduzirmos equipamento de elevada resistência (algo que quase não conseguimos mover na água). Contúdo, dificilmente o fazemos em aulas de hidroginástica.