
Depois de uma infância passada entre água serenas com agulhões esparsos fez-se quase mulher. Belani é uma jovem linda. De pernas esguias e cabelo preto, longo, ondulado e sedutor, apaixona pelo seu doce olhar. A cor dos olhos fica esquecida na candura da face quando sorri. Não caminha, desliza docemente por soalho ou empedrado e o coração é em forma de pedra preciosa. Querida Belani. Dedicou-se de tal forma aos meninos da mãe que lhes bebeu a ternura, soprando-lhes, de seguida, amor do puro, daquele que só se lê nos livros. Esta história é uma homenagem a si.
Belani era muito Jovem e bela. E adorava os meninos.... Desempenhava funções de Educadora num infantário triste de paredes, mas que se queria alegre de emoções. Apesar da onda de calor humano, Belani partilhava o seu cantinho de ensino com uma mulher velha, má e rancorosa, que, quis o destino, nunca teve coração bom. A feia, com ar de bruxa, invejava a beleza e a juventude da Belani e apesar de já não ter grande força, todos os dias lhe sugava por artes de magia o ar que ela respirava, deixando-a fraca e à sua merce. Aproveitava os momentos de alienação que induzia na bela para maltratar os meninos com urros de malvadez e olhares faiscantes de raiva. Belani, contudo, ante o panorama, erguia-se estoicamente e cambaleando afastava-a com um simples sorriso e as crianças, mais serenas, mas ainda assustadas, recomeçavam a brincar. Belani falava-lhes então com a sua voz de fada e elas vinham sentar-se a seus pés, para ouvir mais uma história de final feliz.
(nota da autora: afinal não é Belami, é Belani! Fui corrigida!)No infantário, a manhã passava depressa, mas a tarde arrastava-se, lânguida, entre sestas e entretenimentos menos enriquecedores. E era a hora da velha bruxa. À tarde rabujava mais do que nunca e o seu olhar atingia uma intensidade só ultrapassada pelo faiscar dos momentos de glória, quando Belani, exaurida por artes de magia negra, abandonava os seus meninos. Era estranha a sua reacção de despertar ante os impulsos da malvada, não os sabia explicar, mas agradecia ao vazio a quebra do seu turpor que a levava a salvar a tempo a menina dos lacinhos rosa. Estranho era também que Belani consumia-se de dia , mas a noite, munida de pincel e tintas, forra de enchimento e sopros de bondade, reconstruia a sua beleza, em escala ascendente, e para desespero da velha bruxa, cada vez com maior precisão.Ao contrário de Belani, a bárbara companheira amava a solidão da noite. Maria, chamava-se. Não uma Maria de hoje, chamada em timbres afectados da Foz, mas uma Maria de outrora. Maria mulher do campo, fora de moda, gritada em sotaque bairrista e conviva de Sebastiões e Rafaeis mal batizados. Vestia sempre de negro e não gostava de luar. Agigantava-se lendo livros antigos e corroídos de magia má ante a luz de um coto de vela empoeirado. Nestes momentos sentia-se grande, a maior mulher do mundo, capaz de o dominar com um sinal de dedo. Sonhava acordada, entre leituras de feitiços, com lamas movediças, areias revoltas e trovões. Porque os trovões assustam os meninos. Odiava Belani entre cada sonho, que para ela não existiam pesadelos. Como a queimava o amor que Belani falava, expirava, transpirava... e era gratuito. Era um amor tão gratuito que lhe tocava também a si, abrindo-lhe chagas ardentes entre as dobras da sua roupa fúnebre. Tinha que se livrar de Belani. Maria alimentava-se de terrores e choros de crianças e com a bela por perto a fome batia-lhe à porta. Os seus poderes mágicos estavam enfraquecidos pelo dia a dia de beijos e risos e só um plano bem pensado, maquiavélico, infalível a podia salvar de uma vivência de alegria que desacelerava o bater do seu coração. O plano estava quase pronto. Sem dizeres nem poções, sem fumos, raios ou clarões, poeiras e patas de rã. Era um plano normal, tão normal que não podia deixar de dar certo.Toc, toc, toc...
- sim?! Entre! Cantarolou a doce Belani.Um homem grande de músculos trabalhados entrou, trazendo pela mão a menina dos lacinhos rosa. Deu um agradável bom dia em tom de masculino e o seu olhar deteve-se em Belani, que imediatamente se sentiu, sem saber porquê, algo intimidada com a brancura dos seus dentes perfeitos, emoldurados por um sorriso aberto e aparentemente franco. Olharam-se fixamente nos breves segundos que passaram e atentaram ambos na menina dos lacinhos rosa, que dizia:
- Olá Belani! Este é o meu pimo. Esclareceu. - Estava a tabalhar em Fança, mass agora veio para Portugal por unss temposs. Parexe que vem de fériass, não é ? Perguntou.
- Não é bem, queria piminha. Respondeu o jovem senhor com carinho, imitando o tom da menina. - Vou estar mais algum tempo do que umas simples férias.
- Olha, esta é a Belani! Interrompeu a pequenita. - É muito bonita e meiguinha. Poxo ir axinar o meu nome Belani?
Belani corou como nunca. Sem saber porquê. Respondeu gagejando à menina dos lacinhos rosa, qualquer coisa que significava um sim. Enquanto a menina assinava o seu nome no quadro de papel de cenário onde todos haviam desenhado uma grelha de dupla entrada, Belani escondia timidamente o olhar entre os sapatos negros do visitante e o rosa dos lacinhos.
- Peço desculpa pelo atraso. Com a minha chegada tardia de ontem a piminha deitou-se tarde. A excitação também não ajudou a adormecer depressa e foi quase cruel ter que a levantar.
- Compreendo! Disse Belani educadamente. - Não tem que pedir desculpa. Estamos ainda a organizar-nos para a construção do vulcão.
- Do vulcão? Eles não são um bocadinho pequenos para construi um vulcão? Admirou-se o visitante dos sapatos pretos.
- Não, de todo! Disse Belani descontraindo-se com o tema que lhe era querido. As crianças são muito inteligentes. Este grupo em especial. Fazemos muitas actividades que ajudam a crescer, pensando e reflectindo sobre o mundo que nos rodeia.
- E fazem actividade física? Quiz saber o senhor dos músculos belos.
- Sim, sim, claro! Explicou Belani. - Trabalhamos os músculos para os meninos aguentarem o peso da cabeça à medida que vão aprendendo mais coisas e as vão retendo no cérebro. - E riu-se.
O jovem correspondeu ao sorriso. Despediu-se dizendo que seria ele a vir buscar a menina dos lacinhos rosa. Mais logo, lá pelas quatro e meia...
Belani sentiu um agradável torpor no corpo e um aperto na boca do estômago. Distraíra-se um pouco e a sua atenção foi recair na velha maga, que sentada no canto mais triste da sala, sorria. Belani olhou-a duas vezes, porque não se lembrava de a ver sorrir. Mas o estranho é que aquele era um não sorriso... Um não sorriso? Isso não existe! Que disparate estava para ali a pensar. Devolveu à colega um esgar de lábios envolto na sua aura de benevolência e voltou-lhe as costas, sem lhe querer ler o olhar e atentando de novo nos seus meninos, que começavam já a inquietar-se perigosamente. Uma entrada tardia na sala causava sempre alguma perturbação.
Nas semanas que se seguiram Belani esperava anciosamente cada entrada da menina dos lacinhos rosa. O toc, toc da porta tinham um som mágico que a percorria da cabeça até aos pés, antecipando a entrada do corpo másculo do piminho. Era assim que lhe chamava intimamente. Com o tempo deixou a sua atitude tímida e começou a mostrar-se mais irreverente. Por vezes também lânguida e insinuante, algo que jamais ousar ser. As crianças esboçavam sorrisos escondidos à escancara e cantavam:
- "Namorados, primos e casados, foram à igreja beber uma cerveja, o padre arrotou e a noiva desmaiou"...
De seguida largavam em gritos perseguidos pelo jovem atlético que saltava mesas e cadeiras sem nunca tropeçar, ante o olhar de orgulho da Belani. Como era interessante aquele jovem desportista. Como ocupava os seus sonhos, as suas manhãs e cada anoitecer. Como o esperava durante o dia e o encontrava em memória durante a sesta dos meninos.
A velha bruxa mantinha-se intrigantemente quieta, como se os laivos dissimulados de amor a acometessem a um estado de não existência. Já quase não saía do canto onde dominava a sala com olhos atentos e nublados. Parecia que cegara repentinamente, porque já não se lhe via a menina do olho As crianças não se atreviam a chegar-lhe perto e Belani andava tão feliz que nem dava pela sua presença. Apenas a pele da velha reluzia. Parecia rejuvenescida, mais lisa e estranhamente inodora.
continua