quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

ELE de verde

Sinto-te vestido de verde
Escoando pelo riacho
Cantando entre pedrinhas

Vejo-te vestido de verde
Dissolvido na paisagem

Quero-te vestido de verde
Qual noivo rebelde
De novo, em cada dia

Um fim de semana inesquecível

Este ano decidi oferecer ao ELE, pelo aniversário, um fim de semana em meio rural. Foi das melhores decisões da minha vida. Fomos para um Hotel Rural, em Arouca, Sta Eulália. Saíamos do quarto e apanhavamos castanhas, logo ali debaixo dos castanheiros. Uns metros mais abaixo era já monte para desfrutar e percorrer. As gentes eram amáveis, afáveis, delicadas. Os animais não eram do talho ou dos documentários da televisão. A XX e o XY viram vacas e porcos e cavalos. Fizeram-lhes festas. Diziam "que nojo" e "está sujo", mas queriam ter ficado. Vir embora foi triste. O XY queria ficar o mesmo tempo das férias. A comida era divinal. O carro ficou dois dias parado.
O ELE, esse meu fantástico ELE, já sorria 5 min após a chegada. ELE e o monte, a serra, o verde...
Querem ir?

sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

O Espelho de um amigo cibernáutico

Foi o Pedro que me deu...

Espelho. Arte do pintor que ama
Suor que dos dedos se derrama
Como quem abre uma janela ou uma cama

Partidas e chegadas todas de uma só vez
Amarras e guitarras que ouves e que vês
Respostas de uma nova colecção de porquês

Olhos fixos em ti. No desejo ardente de te ver
Na textura de um eterno nascer
Com que nos existimos, desde que acordamos até ao adormecer

terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Olhar-te


Vejo-te nu, como és
Calcorrilho as tuas incertezas
Os amuos
Elevações e outras grandesas
Uma curva de sorriso
Um esgar de dor
Percorro-te cada passo
Lenta
Devagar
Páro-te, quase te abraço
Arrebato-te, então, em dor
E adormeço chegada a ti
Confortada
Leve
Enamorada

Ainda quero aprender a nadar


Cambalhotas, cambalhotas, deixei-te com a promessa das cambalhotas! Formalmente deves dizer rotações no eixo frontal (o eixo horizontal que fica à frente do teu corpo, mas fora dele. O eixo do varão de protecção em que rodas à saída da escola). Complicado? Nem por isso...

Deves aprender a rodar com o corpo engrupado para a frente e para trás. A aquisição desta competência vai ser de grande valia quando aprenderes as viragens de rolamento, mais tarde. Também vai ser de grande valia aprenderes a retomar as tuas referências em termos de orientação, depois de teres rodado na água. Assim, um dia, se caíres à piscina ou de um barco, mesmo depois de duas ou três cambalhotas, vais saber exactamente onde estás.
Se estiveres a aprender a nadar numa piscina de água rasa (com pé!), deixa que o teu professor te ajude a rodar. Se estiveres numa piscina de água profunda (sem pé), vais ter que fazer as cambalhotas à frente e à retaguarda a partir da posição de "cócoras" no bordo. Deixas-te cair para a água e rodas!
Depois de teres aprendido tudo o que te descrevi para trás, já deves estar apto a começar a bater as pernas. Experimenta! Pegas na placa na posição horizontal (com o bordo mais largo na frente da tua cabeça) e usas uma péga média (as duas mãos pegam lateralmente na placa, nos bordos mais estreitos). Esticas bem as pernas e os pés (sem ficares exageradamente tenso), esticas bem o braços e começas a nadar. É fundamental que coloques a cabeça dentro de água, coisa que, estou certa, já fazes muito bem. Sempre que quiseres respirar eleva a cabeça e inspira fortemente. Depois volta a colocar a cabeça na água e expira, tirando o ar todo da barriga antes de voltares a emergir a face para inspirar. Lembra-te: é proibído expirar fora de água, ou mais tarde, quando estiveres a aprender as técnicas, pagarás caro este erro, em descoordenação!
Agora chegamos a uma parte muito engraçada: tens de encontrar formas diferentes de te deslocares na água e eu ainda não te vou ensinar nenhuma técnica de nado. Como podes nadar?
É fácil, nada como se fosses uma cadeira, depois um Leão, logo um candeeiro, como uma ave e até um parafuso. Inventa tu, nada como quiseres. Só tens de ser capaz de te deslocar.
Pois digo-te: estás mesmo em "ponto de rebuçado". Prontinho para novas aventuras. Estás adaptado ao meio aquático. Não tens problemas em nadar sem óculos, não precisas de braçadeiras ou flutuadores para te manteres à superfície e até sabes colocar-te na posição hidrodinâmica, fazer parafusos e dar cambalhotas. Estás um verdadeiro campeão em adaptação ao meio aquático.

Parabéns!!

Queres aprender a saltar de cabeça? Do Bloco?
Não?
Já tentaste uma vez, e...
Magoaste-te?
Na barriga? Doeu muito?
Sei, foi um "chapão"
É...
Desagradável...
Olha, confia em mim. Vou mesmo ensinar-te a saltar de cabeça. Não tenhas medo, sei uns "truques anti-chapões". Vais ter é de esperar um pouco, porque estou a ficar com muuuiiito sono.


Até breve!

segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Concurso crioestaminal

A crioestaminal dá 50 euros à casa do Gil por cada participante num concurso de histórias. Acaba a 31 de Outubro. Toca a escrever, gente! Se não souberem o quê, perguntem-me que eu invento o mote. Leiam aqui.

domingo, 19 de Outubro de 2008

Portas da Reitoria


Escrito numa porta de WC da Reitoria da UPorto, o magnífico edifício onde outrora funcionou a Faculdade de Ciências, ali mesmo em frente "aos Leões":

Fazer guerra pela paz é o mesmo que fod... pela virgindade.

Não deixa de ser uma relação interessante... estranha, mas interessante.

terça-feira, 14 de Outubro de 2008

No Aniversário do ELE


Tia pegunta à XX: como se chama quando as pessoas dizem "subir para cima" e "descer para baixo"?
XX responde: estupidez!

Bem visto, filha! Até que está certo!

terça-feira, 7 de Outubro de 2008

O esqueleto


A XX anda a aprender os ossos do corpo humano e apesar de pertencer à geração dos Herbert e dos Martin, não lhe está a ser fácil decorar os nomes estranhos cá da nossa ossada. Hoje, ao rever com ela o TPC que havia feito no ATL, disse-me:
- Ó mãe, se tu escrevesses um poema eu decorava mais depressa.
E assim foi.

Na frente da cabeça tenho o frontal
Se os olhos baixar p'ró esterno vou olhar
A correr o tronco a coluna vertebral
E se para o braço andar o úmero vou encontrar

O rádio tem a antena
E o cúbito para sintonizar
O fémur é quem aguenta
O que eu puder carregar

A tíbia é larga e gorda
O perónio é pequeno
A rótula separa-os do fémur
Que é o osso supremo

Podia dar-me para pior, não é?

sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Olhar de sentidos

Hoje quis escrever um poema
Mas não consigo
Os poemas parecem sair da tristeza
Mas não estou triste
Amo-te hoje mais do que nunca
Porque me embalas em doces susurrares
Toques, olhares e promiscuidades
Numa dança de longa música

E eu
Com os olhos fechados em mim
E os sentidos abertos em ti

quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Já não há canudo...

Já não há canudo...
A minha loira ontem deu-me um desgosto.

- Olá professora, já recebi a caixa do diploma de curso.
- Hã, que linda, então já tens o teu canudo!
- Não é um canudo é uma caixa preta, rectangular.
- Quer dizer que já não se tira o canudo?
- Não... agora tira-se a caixa.

Bolas, não gosto nada destas modernices...

Belani - nota importante

Vou seguir a linha da história do cão que não tinha casa. Sempre que escrever mais um bocadinho faço-o no mesmo post (vão lá ver) e mudo de cor. No fim junto tudo, corrijo e peço desculpa pelos erros ortográficos. Se bem que o Gabriel Garcia Marques diz que dá tantos erros ortográficos que os editores mais bondosos afirmam a viva voz serem enganos de bater de tecla. Eu cá nunca dei conta...

quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Belani

Depois de uma infância passada entre água serenas com agulhões esparsos fez-se quase mulher. Belani é uma jovem linda. De pernas esguias e cabelo preto, longo, ondulado e sedutor, apaixona pelo seu doce olhar. A cor dos olhos fica esquecida na candura da face quando sorri. Não caminha, desliza docemente por soalho ou empedrado e o coração é em forma de pedra preciosa. Querida Belani. Dedicou-se de tal forma aos meninos da mãe que lhes bebeu a ternura, soprando-lhes, de seguida, amor do puro, daquele que só se lê nos livros. Esta história é uma homenagem a si.

Belani era muito Jovem e bela. E adorava os meninos.... Desempenhava funções de Educadora num infantário triste de paredes, mas que se queria alegre de emoções. Apesar da onda de calor humano, Belani partilhava o seu cantinho de ensino com uma mulher velha, má e rancorosa, que, quis o destino, nunca teve coração bom. A feia, com ar de bruxa, invejava a beleza e a juventude da Belani e apesar de já não ter grande força, todos os dias lhe sugava por artes de magia o ar que ela respirava, deixando-a fraca e à sua merce. Aproveitava os momentos de alienação que induzia na bela para maltratar os meninos com urros de malvadez e olhares faiscantes de raiva. Belani, contudo, ante o panorama, erguia-se estoicamente e cambaleando afastava-a com um simples sorriso e as crianças, mais serenas, mas ainda assustadas, recomeçavam a brincar. Belani falava-lhes então com a sua voz de fada e elas vinham sentar-se a seus pés, para ouvir mais uma história de final feliz.

(nota da autora: afinal não é Belami, é Belani! Fui corrigida!)

No infantário, a manhã passava depressa, mas a tarde arrastava-se, lânguida, entre sestas e entretenimentos menos enriquecedores. E era a hora da velha bruxa. À tarde rabujava mais do que nunca e o seu olhar atingia uma intensidade só ultrapassada pelo faiscar dos momentos de glória, quando Belani, exaurida por artes de magia negra, abandonava os seus meninos. Era estranha a sua reacção de despertar ante os impulsos da malvada, não os sabia explicar, mas agradecia ao vazio a quebra do seu turpor que a levava a salvar a tempo a menina dos lacinhos rosa. Estranho era também que Belani consumia-se de dia , mas a noite, munida de pincel e tintas, forra de enchimento e sopros de bondade, reconstruia a sua beleza, em escala ascendente, e para desespero da velha bruxa, cada vez com maior precisão.
Ao contrário de Belani, a bárbara companheira amava a solidão da noite. Maria, chamava-se. Não uma Maria de hoje, chamada em timbres afectados da Foz, mas uma Maria de outrora. Maria mulher do campo, fora de moda, gritada em sotaque bairrista e conviva de Sebastiões e Rafaeis mal batizados. Vestia sempre de negro e não gostava de luar. Agigantava-se lendo livros antigos e corroídos de magia má ante a luz de um coto de vela empoeirado. Nestes momentos sentia-se grande, a maior mulher do mundo, capaz de o dominar com um sinal de dedo. Sonhava acordada, entre leituras de feitiços, com lamas movediças, areias revoltas e trovões. Porque os trovões assustam os meninos. Odiava Belani entre cada sonho, que para ela não existiam pesadelos. Como a queimava o amor que Belani falava, expirava, transpirava... e era gratuito. Era um amor tão gratuito que lhe tocava também a si, abrindo-lhe chagas ardentes entre as dobras da sua roupa fúnebre. Tinha que se livrar de Belani. Maria alimentava-se de terrores e choros de crianças e com a bela por perto a fome batia-lhe à porta. Os seus poderes mágicos estavam enfraquecidos pelo dia a dia de beijos e risos e só um plano bem pensado, maquiavélico, infalível a podia salvar de uma vivência de alegria que desacelerava o bater do seu coração. O plano estava quase pronto. Sem dizeres nem poções, sem fumos, raios ou clarões, poeiras e patas de rã. Era um plano normal, tão normal que não podia deixar de dar certo.

Toc, toc, toc...
- sim?! Entre! Cantarolou a doce Belani.


Um homem grande de músculos trabalhados entrou, trazendo pela mão a menina dos lacinhos rosa. Deu um agradável bom dia em tom de masculino e o seu olhar deteve-se em Belani, que imediatamente se sentiu, sem saber porquê, algo intimidada com a brancura dos seus dentes perfeitos, emoldurados por um sorriso aberto e aparentemente franco. Olharam-se fixamente nos breves segundos que passaram e atentaram ambos na menina dos lacinhos rosa, que dizia:

- Olá Belani! Este é o meu pimo. Esclareceu. - Estava a tabalhar em Fança, mass agora veio para Portugal por unss temposs. Parexe que vem de fériass, não é ? Perguntou.
- Não é bem, queria piminha. Respondeu o jovem senhor com carinho, imitando o tom da menina. - Vou estar mais algum tempo do que umas simples férias.
- Olha, esta é a Belani! Interrompeu a pequenita. - É muito bonita e meiguinha. Poxo ir axinar o meu nome Belani?

Belani corou como nunca. Sem saber porquê. Respondeu gagejando
à menina dos lacinhos rosa, qualquer coisa que significava um sim. Enquanto a menina assinava o seu nome no quadro de papel de cenário onde todos haviam desenhado uma grelha de dupla entrada, Belani escondia timidamente o olhar entre os sapatos negros do visitante e o rosa dos lacinhos.

- Peço desculpa pelo atraso. Com a minha chegada tardia de ontem a piminha deitou-se tarde.
A excitação também não ajudou a adormecer depressa e foi quase cruel ter que a levantar.
- Compreendo! Disse Belani educadamente. - Não tem que pedir desculpa. Estamos ainda a organizar-nos para a construção do vulcão.
- Do vulcão? Eles não são um bocadinho pequenos para construi um vulcão? Admirou-se o visitante dos sapatos pretos.
- Não, de todo! Disse Belani descontraindo-se com o tema que lhe era querido. As crianças são muito inteligentes. Este grupo em especial. Fazemos muitas actividades que ajudam a crescer, pensando e reflectindo sobre o mundo que nos rodeia.
- E fazem actividade física? Quiz saber o senhor dos músculos belos.
- Sim, sim, claro! Explicou Belani. - Trabalhamos os músculos para os meninos aguentarem o peso da cabeça à medida que vão aprendendo mais coisas e as vão retendo no cérebro. - E riu-se.

O jovem correspondeu ao sorriso. Despediu-se dizendo que seria ele a vir buscar a menina dos lacinhos rosa. Mais logo, lá pelas quatro e meia...

Belani sentiu um agradável torpor no corpo e um aperto na boca do estômago. Distraíra-se um pouco e a sua atenção foi recair na velha maga, que sentada no canto mais triste da sala, sorria. Belani olhou-a duas vezes, porque não se lembrava de a ver sorrir. Mas o estranho é que aquele era um não sorriso... Um não sorriso? Isso não existe! Que disparate estava para ali a pensar. Devolveu à colega um esgar de lábios envolto na sua aura de benevolência e voltou-lhe as costas, sem lhe querer ler o olhar e atentando de novo nos seus meninos, que começavam já a inquietar-se perigosamente. Uma entrada tardia na sala causava sempre alguma perturbação.

Nas semanas que se seguiram Belani esperava anciosamente cada entrada da menina dos lacinhos rosa. O toc, toc da porta tinham um som mágico que a percorria da cabeça até aos pés, antecipando a entrada do corpo másculo do piminho. Era assim que lhe chamava intimamente. Com o tempo deixou a sua atitude tímida e começou a mostrar-se mais irreverente. Por vezes também lânguida e insinuante, algo que jamais ousar ser. As crianças esboçavam sorrisos escondidos à escancara e cantavam:
- "Namorados, primos e casados, foram à igreja beber uma cerveja, o padre arrotou e a noiva desmaiou"...
De seguida largavam em gritos perseguidos pelo jovem atlético que saltava mesas e cadeiras sem nunca tropeçar, ante o olhar de orgulho da Belani. Como era interessante aquele jovem desportista. Como ocupava os seus sonhos, as suas manhãs e cada anoitecer. Como o esperava durante o dia e o encontrava em memória durante a sesta dos meninos.
A velha bruxa mantinha-se intrigantemente quieta, como se os laivos dissimulados de amor a acometessem a um estado de não existência. Já quase não saía do canto onde dominava a sala com olhos atentos e nublados. Parecia que cegara repentinamente, porque já não se lhe via a menina do olho As crianças não se atreviam a chegar-lhe perto e Belani andava tão feliz que nem dava pela sua presença. Apenas a pele da velha reluzia. Parecia rejuvenescida, mais lisa e estranhamente inodora.

continua