
Era uma vez um reino maravilhoso onde só viviam pessoas maravilhosas e animais extraordinários. Nesse reino não se conheciam lágrimas, ninguém agredia ninguém, fosse com palavras ou acções. As pessoas acordavam a sorrir, riam e gargalhavam durante o dia e adormeciam com a boca entreaberta e uma expressão alegre. Ninguém conhecia os pesadelos e os sonhos eram sobre viagens extraordinárias para as quais não era preciso levar carro e marcar hotel, pois havia sempre alguém bondoso ao ponto de dar uma boleia e de oferecer a sua casa para dormir. As crianças não eram mais felizes do que os adultos, porque todos eram igualmente felizes. Os avós não conheciam a tristeza e o abandono porque sabiam sorrir e nunca ficavam doentes. Nesse reino ninguém morria. As pessoas faziam como os elefantes. Iam deixar a sua carcaça bem longe e logo uma mulher da família engravidava, trazendo o desaparecido de novo ao convívio de todos, o que dava azo a grandes comemorações e, claro, a mais e mais alegria. Era um reino sem pobreza, onde não havia dinheiro. As pessoas trabalhavam por gosto e ofereciam tudo o que tinham. O carpinteiro fazia uma porta ao agricultor e recebia as batatas e a penca para o jantar. A cozinheira trocava o seu assado de beringelas por uns lençóis para a cama, que a costureira fazia com as melhores linhas. É que os animais, como o bicho-da-seda, faziam as matérias-primas com extremo gosto, já que sabiam que ninguém lhes ia esmagar o casulo. Por o povo deste reino ser tão especial, os animais também eram felizes. Como foram sempre bem tratados e compreendidos, tornaram-se cada dia mais inteligentes e desenvolveram poderes de amor muito especiais. Os animais mais admirados por todo o reino eram o porco, o gato e a cobra da princesinha mais bondosa de que alguma vez se ouviu falar, filha do rei mais bondoso de que há memória e da mãe mais carinhosa do mundo. Estes animais não eram nada normais, eram invulgares ao ponto do porco se por de pé e das patas da frente ganharem a forma de braços e se esticarem infinitamente num abraço enorme e grandioso capaz de levar carinho ao viajante mais distante e solitário. O gato era dono de um maravilhoso sopro quente, um sopro tão forte que conseguia levar conforto a qualquer ponta do mundo. A cobra tinha uma magnífica cauda que arrancava vastos pedaços de terreno cuidadosamente cultivado para os mudar de lugar, colocando-os em sítios onde eram precisos, para alimentar famílias, que assim nunca saberiam o que é ter fome. Eram animais tão especiais que seguiam até as regras de bem conviver entre humanos. Pediam licença para passar, levantavam-se quando um velhinho se desejava sentar, salvavam todos os que espirravam, desculpavam-se com um sentido com licença quando arrotavam nas suas vozes de animais e, como se isto tudo já não bastasse, até faziam cabriolas para entreter as crianças enquanto os pais trabalhavam com entusiasmo.
Era um reino mesmo muito feliz, que foi feliz durante centenas e centenas de anos, todos os meses, todos os dias.
Esta história terminaria aqui se o destino não tivesse querido tudo alterar. Contam as lendas que um habitante deste reino, com vocação de explorador, decidiu um dia partir em busca de belas paisagens cujo descritivo haveria de alimentar os sorrisos que eram a alma do seu povo. Por vários anos partiu e voltou, sempre com novas e belas histórias, até que um dia nada mais se soube dele. Como nenhuma mulher engravidara após o seu desaparecimento, o povo feliz sabia que o seu explorador não havia morrido. Na sequência deste episódio, mais e mais exploradores do reino foram desaparecendo sem deixar rasto e o povo feliz começou a aprender o significado da palavra ansiedade, que jamais havia entrado nas suas vidas. Apesar de continuarem imensamente alegres, passaram a olhar os portões do reino várias vezes por dia e breve, breve aprenderam o significado de outra palavra que até então desconheciam: a saudade.
Assim viveram durante uns poucos de anos, até que um dia sentiram a terra a tremer. Julgando ser uma brincadeira mais assanhada da cobra da princesinha do reino, continuaram alegremente nos seus afazeres, esboçando sorrisos de compreensão e gargalhadas de cumplicidade. Mas durou pouco este momento, pois num espaço de segundos um violento som de corneta ecoou no ar e os portões do reino foram abertos com estrondo. Um grupo de homens bateu contra eles um largo e pesado tronco e como no reino não havia portas trancadas, o enorme estrondo que se ouviu foi o bater das gigantes portadas contra os enormes muros que rodeavam o reino, muros que tinham apenas a função de proteger os habitantes dos ventos do Norte, uns ventos fortes e atrevidos que empurram homens e elevam as saias das senhoras. Nesta hora aprenderam o significado do susto. Nunca se tinham assustado com nada! Mas logo após o estrondo jorraram urros de alegria, pois os homens que entravam no reino eram os seus exploradores perdidos. Correram a abraçá-los, gritando de felicidade, mas de imediato foram barrados com a voracidade das palavras e dos socos daqueles que já adivinhamos serem invasores do reino. Sem saber o que fazer, o povo doce estacou e aprendeu a ter medo. Nada fez enquanto dezenas de homens maus invadiam as suas casas e pisavam as suas hortas, em busca de algo que não sabiam ser o que era. Mas breve o descobriram. Em marcha compassada a ritmo de tambor, um grupo daqueles homens ferozes descia a colina do castelo onde vivia a princesinha trazendo capturados o porco, o gato e a cobra, que serenamente aceitavam o seu destino. Num curto espaço de tempo os homens maus foram-se embora, deixando o rasto tenebroso da sua passagem e levando consigo os três animais mais esplêndidos do reino. O povo feliz manteve-se imóvel durante muito tempo, porque ao olhar o castelo as pessoas viram algo que nunca tinha visto e que sabiam ser o pior que lhes podia acontecer: a princesinha chorava. As lágrimas corriam-lhe pela face e, no reino, à imagem dos seus soberanos, já ninguém sorria. Os animais, como que por magia, perderam a sua humanidade, parecendo subitamente desorientados, como se já não pertencessem ali.
Passadas as portadas do reino, o porco, o gato e a cobra foram dele levados para um estranho acampamento. Situava-se a poucos quilómetros do reino feliz e era muito feio. Havia uma série de tendas cinzentas e muito sujas armadas em círculo. Uma série de homens de expressões malévolas trabalhavam armas cortantes. Não se viam crianças nem animais. Não cantavam pássaros nem havia árvores verdejantes. O solo cheirava a podre. Os homens tinham marcas de luta e ninguém parecia feliz. No centro do acampamento observava-se uma grande gaiola onde o sol batia com toda a força e onde os animais foram colocados e deixados a secar até quase ao por do sol. Quando a noite ameaçava começar a instalar-se, surgiu da maior tenda do acampamento um homenzinho atarracado e muito feito, armado até aos dentes e dono de uma voz de trovão que assim ecoou entre todos os demais:
- Porco, gato e cobra, poderosos animais entre os demais. É minha ordem que amanhã, ao raiar do dia, useis os vossos poderes em meu benefício. Ides destruir o reino da felicidade e abrir as portas a mim, MalévoMau, o grande senhor do mal.
Dito isto, retirou-se, envolto numa nuvem de poeira que dificultava a respiração.
Os animais não se mexeram. Não se olharam, nem sequer pestanejaram. Ninguém sabia dizer, sequer, se haviam ouvido MalévoMau. Permaneceram completamente imóveis, como estátuas. Melhor dizendo, talvez mesmo como gárgulas, cujos olhos de pedra nos parecem vigiar. E assim permaneceram toda a noite.
O dia nasceu estranho, pesado, nem feio nem bonito. Raiou apenas dia.
MalévoMau saiu da tenda com o primeiro raio de luz, acompanhado por uns dez ou doze homens maus, e deu ordem imediata de saída em direcção ao reino da felicidade. A grande gaiola dos animais foi colocada em cima de um enorme carro puxado por soldados que haviam caído nas más graças de MalévoMau e que eram chicoteados todo o tempo, para não desistirem de puxar. Rapidamente chegaram às portas do reino, que se encontravam abertas ao mal. O povo estava reunido no castelo, junto com os seus soberanos e a sua princesa, cujas lágrimas continuavam a correr, não gota a gota, mas em verdadeiros fios de água. MalévoMau comandou em surdina os seus homens e o porco foi retirado da gaiola. Malévolau assim lhe berrou:
- Porco. Ordeno-te que te ergas nas tuas patas traseiras, que faças crescer teus braços até não mais conseguires e, com o teu abraço, esmagarás todo o reino da felicidade. Se não o fizeres os teus amigos morrerão. Primeiro o gato, depois a cobra e, finalmente, tu mesmo.
O porco não se moveu da posição que mantinha desde que fora capturado. Parecia seco como uma minhoca fora da lama. MalévoMau voltou a gritar-lhe a mesma ordem três vezes, até que incitou os guardas a matarem o gato. Armados de grandes espadas muito cortantes, os soldados do mal espetaram o gato em vários pontos, mas, não o conseguiram ferir. Nem sequer arranhar! Mesmo sem que o seu chefe o ordenasse, passaram de seguida à cobra, tentando cortar-lhe a cabeça, mas alguma força misteriosa afastava os gumes cortantes da pele dos animais. Estranhamente, MalévoMau mandou parar com as tentativas. Ordenou que voltassem a colocar o porco na gaiola e deu ordem de retirada para o acampamento.
Muitos dias passaram sem que MalévoMau saísse da sua tenda ou dissesse uma frase. Os homens maus pararam de bater no ferro para fazer espadas. O tempo parecia parado... Até que, subitamente, todos saíram das tendas rindo e cantando alegremente, conversando e dançando num ritual barulhento e infernal. Abriram a gaiola e de lá tiraram os animais e continuaram em festa por longos dias, com MalévoMau a provocar constantemente estrondosas gargalhadas. Todos pareciam muito alegres e divertidos, mas era uma alegria estranha. O porco, o gato e a cobra, agora livres, pareciam empedrar-se cada dia mais. E não apareciam pássaros. Onde estariam os pássaros? Os pássaros gostavam tanto de risadas!
Numa nova manhã de um novo dia, nem bonito nem feio, soldados e animais voltaram a partir em direcção às portas do castelo. Desta vez foram cantando. O bombo não comandava a marcha, acompanhando antes as canções, que não eram bonitas nem feias. Eram só canções. E logo chegaram às portas do reino da felicidade. E aí pararam.
Subitamente, pelas portas do reino começou a passar uma multidão de pessoas de rosto sério. À frente a princesa, que já não chorava, mas que mostrava dois longos riscos vermelhos que cortavam a sua face, desde os olhos ao seu queixo. Com um gesto de mão ordenou a um grupo de homens do reino feliz que pegassem nos animais. Os homens assim o fizeram e todos continuaram a caminhar. MalévoMau, cujo propósito era entrar no reino disfarçado de homem feliz, ao perceber que o povo e os seus animais especiais ia escapar, quis dar ordem de morte aos passantes, mas não conseguiu. A garganta estava presa por artes de magia, os membros retesados e imóveis e os seus soldados eram de chumbo, tombando no chão à passagem do povo feliz.
E foram-se todos embora.
MalévoMau voltou pouco tempo depois ao seu estado normal e os soldados voltaram a ganhar vida. Invadiram finalmente o reino feliz e nele se instalaram, aí ficando por toda a eternidade, com o pensamento vazio, nem tristes, nem felizes, apenas ausentes. O povo feliz mudou-se para outras paragens e construiu um novo reino onde foi esquecendo o passado, o que aconteceu no dia em que a princesa deixou de ter as marcas das lágrimas na sua casa.
Muitos e muitos anos volvidos, não se sabe o que aconteceu a este povo feliz. Simplesmente desapareceu. Talvez tivessem perdido a capacidade de renascer. Talvez tenham encontrado um reino não visível para nós. Talvez existam apenas dentro dos nossos sonhos. Deste povo, muitos anos depois, apenas se encontrou uma mensagem. A de que fora a mãe da princesinha, com a sua enorme bondade que, com a ajuda do pai, percebera como salvar o reino. E daqui nasceu o dia da mãe, pelo menos nos meus sonhos.
Mas algo fica desta história por desvendar. Uma pergunta. Uma dúvida, uma grande interrogação. Porque não lutou o povo feliz? Porque não lutaram os animais mais poderosos do mundo? Porque é que o porco não abraçou aqueles soldados maus, matando muitos? Porque não soprou o gato, varrendo o povo mau por terras distantes? Porque não levantou a cobra simplesmente aquele pedaço de terra e mudou a maldade para outro lado do mundo, para bem longe do povo feliz?
Já pensaram?
Pensem bem. Porque não?
Querem que eu diga porquê?
Porque ao deixar viver alguns soldados do povo mau ou ao enviá-los para outras paragens iam deixar que os soldados fizessem outros povos infelizes. O povo feliz sabia que lutar seria fácil, mas não inteligente. Sabiam que tinham um reino mágico, tão cheio de felicidade que era capaz de anular a maldade dos homens maus. Assim, o povo feliz deixou simplesmente o seu reino, porque seria feliz em qualquer lugar. E os homens maus, assim que nele entraram, nele encontraram a sua prisão e aí começou o seu fim. É como quando nos zangamos com um amigo. Já repararam que quando um amigo quer lutar connosco, se lhe voltamos as costas ele fica mais zangado do que se tivesse lutado? Já viram como ele fica infeliz por não ter conseguido lutar?É claro que ele fica infeliz! Se ele nos queria bater para nos fazer chorar e não conseguiu, é ele que fica infeliz. Nós, ao voltar as costas à luta, seguimos, felizes, o caminho da felicidade.
E agora? O que mais têm a dizer sobre isto? Deixo-vos a pensar.
E um dia voltarei para contar outra história.
22 comentários:
é por isso que os miudos de agora são uns revoltados!
como se já não bastasse mentirem-lhes com a história do pai natal, inventam outras que eles vêm a descobrir que não são verdadeiras... ;)
Olá viciado! Já tinha saudades do teu carinho!
Tu tem calma que a parte real ainda aí vem e com força. Não te esqueças que eu ponho tudo negro e só gosto de finais felizes.
Boa cai-lhes em cima com uma boa dose de cinismo adulto! Primeiro tudo fino, depois toma-lá com as desgraças!
Mas esta parte tão feliz não era o final???
Eu queria viver num Mundo assim, por favor!
Atenção porque aos meus sobrinhos nunca ninguém lhes mentiu sobre o Pai Natal.
Até porque o Pai Natal existe...
Ora dando asas à imaginação... cá fico à espera dos próximos capítulos ...
antónio: grrrrr.........
Tia cunhada: e até a sobrinha que já descobriu tudo continua a acreditar. Isto é que é magia Sr. António, isto é que é magia!
Miss solarenga: já vai, já vai. A bem dizer não tenho muito tempo. A leitura é já para a semana...
Este mundo vivia dentro de mim, agora partilhei-o contigo!
continua, continua, adorei o início da tua história!!!
Já está Dani, já tem mais um bocadinho!
Então de regresso. E que regresso! Viva a imaginação.
Por acaso não andou a ler Karl Marx, ultimamente, tão não? É que assim tudo tão bem distribuidinho ao princípio...
Seja bem regressada.
Beijo.
Dona gatinha, penso que nem nunca li Karl Marx. Não se esqueça que as minhas incursões literárias são particularmente tímidas, eu que sou das ciências!
Ontem acabei de ler "A gárgula", de Andrew Davidson. Um livro espantoso. Em termos de riqueza de história e da forma como é contada comparo-o aos "Cem Anos de Solidão" do gabriel G. Marques.
Entretanto comecei um escrito em "Brasileiro", que me custa a ler porque o tenho que ler em "Brasileiro", mas cuja história me está a pôr em pulgas. Parece-me algo ao estilo de "As velas ardem até ao fim", mas ainda estou nas primeiras páginas, ainda não me lembro do título, nem do nome da autora, por isso, logo se verá.
Qual imaginação a minha, qual quê!!
Beijitos, antes que eu desapareça outra vez!!
Espero que ponhas por aqui mais realismo, ou as crianças, precoces como agora são, ainda se riem de ti.
Eu, que continuo a ser uma criança do antigamente, estou a adorar.
Saudades de te ver metida num 31.
era uma vez...
que mundo giro para se viver!
bom fim de semana!
Quero ler o capítulo seguinte...
Então demora muito?
Olá adrianeites!
Olá Outono! não demora muito, para a semana tenho que a ir ler...
Que linda história para crianças com 6 ou 9 anos
Pipoquinha fofa!
Estou a bater palmas...
:-)
estou a fazer uma vénia...
:)
MAs há uma outra questão... Chegou a ler a história para os meninos? eles gostaram? =)
EU gostei... Mas ainda assim, acho que há uma ou outra expressão que pode ser um pouco "pesada" para uma criança...
Li sim senhor! As partes "pesadas" lá tratei de as explicar. Esta é a minha dificuldade ao escrever para crianças... as partes pesadas. De qualquer forma, este conto está menos bem conseguido que o do cão e o do morceguito, acho eu.
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