O rapto. Cèzanne. 1867.Sentei-me no chão com as pernas estendidas e cruzadas. Era quase fim de dia e o vento fazia esvoaçar ligeiramente os meus cabelos, uma brisa fresca que empurrava o calor da tarde e fazia despertar os sentidos até então ensopados em suor. O cenário era como que de um filme de cowboys. Talvez com Mexicanos. O olhar caía sobre a terra rudemente alisada e em frente, ao longe, avistava-se um monte aparentemente insondável. O corpo relaxava da agressão do calor, num apelo ao passeio antes de um banho tépido. Um ruído de crianças brincando...
- Dá-me isso!
- Mãeeeeee... a mana não me deixa brincar com a casa das Barbies!
- Tu estragaste tudo. Detruiste o que eu construi.
- Não estraguei nada! Mãe...
- Chega! O que é que se passa agora? Vocês não conseguem brincar sem se pegarem um com o outro? Ou páram já com isso ou eu atiro-me para o chão, estrebuxo e desato aos gritos! Aaaaaaaaaa...
- Isso mãe, atira-te para o chão!
- Mãe, grita mais!
- Saiam-me da frente que eu vou-vos comer... Yaaaaaaaaa... Vá meninos, toca a despachar que vamos sair.
- Onde vamos mãe?
- Vamos ao shopping, às compras.
- Yupiiiiiiiii!!!!!!
- Eu não quero ir às compras. Eu quero ficar em casa a brincar...
- Ficas sózinho?
- Não...
- Então anda, despacha-te. Calça as sapatilhas e vamos.
A Nova Era e a Cidade disputavam o podium no rádio do carro. A música da moda a ter em dia para as aulas de hidroginástica. As crianças sossegadas ao som das batidas fortes e do volume nos 40. Curioso. O cenário mexicano teimava em voltar. Sentei-me de novo à porta de casa, depois de ter ido buscar uma bebida fresca à cozinha. A brisa voltou a enrodilhar-se nos meus cabelos e os fluídos corporais pareceram voltar a correr. Como era tão bom descontrair no fim do dia...
- Paaaaaaaa... paaaaaaaa... Volta p'rá cozinha, ó parvalhona!
Vai-te f... antes parvalhona que trolha mal educado... no méxico, a mesma brisa, o mesmo relaxe.
- Meninos, chegamos!
-Mãe, o mano adormeceu!
- A mãe já o acorda! Com que então a fingir, meu malandro! Então meninos, qual é a regra?
- Não se sai da beira da mãe, nem que seja para ir ver uma coisa que está mesmo ao lado. Primeiro diz-se à mãe!
O méxico despareceu. A brisa cessou. O calor voltou a apertar.
14 comentários:
Estou sem palavras... Que delícia! Viajei por vários lugares enquanto lia o teu texto...
Mais um que quero ver em livro:-)
Tia: sempre em dia com as leituras! Livro? Isso é coisa muito séria! nem tenho ideia de como é que isso se faz. Tem regras, parece. Estou tão só a dar largas à imaginação!
(mas ainda bem que gostaste)
Mas tu já publicaste um livro!!! É só mudar o título e o conteúdo... :-)
Eheheh! Mas esse era sobre tratamento de água de piscinas... E disso eu ainda sei umas coisinhas (poucas)...
A mulher ao telefone, eu ao computador, a mais nova a ver bonecos e a mais velha a fazer uma birra! Alegra-te, não és a única família disfuncional!
Tratamento de água em piscinas? Um livro de ficção, portanto!
Ó Manel (Tia, este Manel tem nome de Santo Junino, de vez em quando...), o tema não era esse! O outro livro é pura ficção!
Defendes o uso de cloro? ;)
Não conheço o São Manuel...
Mas que bem! É só boas descobertas!
:))
Que simpático comentário solarengo! Descobrir é sempre interessante!
Só uma curiosidade... e as crianças não lembraram a mãe que não se sai da beira delas nem que seja para ir, num instante, ao México?
Passos: o texto fala sobre a angústia do rapto. A mãe permite-se viajar sempre até ao méxico, segura de que os filhos estão por perto. Está cansada e o sonho insiste em ser o seu refugio. Porém, o sonho acaba à porta do shopping... a mãe fica completamente alerta perante o perigo, sabendo que a mãe nunca deixa a criança sózinha, nem que seja para viajar até ao méxico.
Estamos em sintonia, não?
Confesso que não estávamos. Escapara-se-me a angústia do rapto. Lera a necessidade de voar para um outro lugar, o aterrar na necessidade de conduzir o interesse das crianças para outra superfície, o cuidado repetido em apelos que todos nós pais fazemos aos nossos filhos e permiti-me brincar com um aviso ao jeito de quem diz ao filho para não ousar uma determinada acção que, às escondidas acabámos de...
Mais ou menos como quando dizemos: 'Não comas mais batatas fritas!'... disfarçando uma que temos na nossa boca...
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