Caro Passos
(ou Pedro como me aparece no meu e.mail. Pedro? Politécnico? Será?).
O comentário que me deixou merece uma séria e estimulante reflexão académica.
Disse, me, então:
Oh Senhora Professora, fiquei abismado com as suas palavras relativamente ao desportista de alto rendimento. Então não existem estudos prévios sobre a periodicidade e calendarização das sessões de modo a apontar sobrecargas nuns momentos mais adequados e um ‘alívio’ das mesmas noutras alturas específicas? Então não se acautela determinado tipo de exercício que possa precaver lesões habituais em determinada actividade? Então não se cria um método de treino que tente equilibrar as assimetrias que quase todas as actividades desportivas por si só provocam? Ou será que está a falar duma forma muito generalista só para chegar ao fulcro do seu post? Deixe-me que lhe diga que já muitas vezes me questionei porque, por exemplo, os futebolistas não têm uns exercícios ‘mais a sério’ de alongamentos [não aqueles que eles simulam como se estivessem a fazer um grande feito contorcionista…]’ Será que não evitariam algumas lesões naqueles músculos que obrigatoriamente têm de suportar corridas constantes ao longo de noventa minutos? Às vezes creio que determinados estiramentos resultam duma massa muscular sem o mínimo de elasticidade. Isto sou eu a perguntar, pois a especialista é a Susana.
Assim lhe respondo.
Tudo o que diz em relação ao treino está absolutamente correcto. Contudo, um atleta não pode fugir muito ao âmbito particular da sua modalidade. Aliás, onde ficariam as nossas velhinhas discussões sobre a especialização precoce? Mas vamos por partes.
Abisma-se o Pedro e refere que: "Então não existem estudos prévios sobre a periodicidade e calendarização das sessões de modo a apontar sobrecargas nuns momentos mais adequados e um ‘alívio’ das mesmas noutras alturas específicas".
Diga-me, se estiver incorrecta, se essas sobrecargas e momentos de alívio não decorrem dentro da modalidade. Acaso mudamos de movimento para mudar a sobrecarga? Será que nos momentos de alívio o nadador deixa de nadar para ir correr ou jogar à bola? Tirando no início dos períodos de preparação geral e na entrada das férias (e para os mais novos!), não são as alternâncias de carga (particularmente a fisiológica) realizadas com o atleta nadando, se é nadador, ou correndo, se é corredor? Não nos dizem os estudos, por exemplo, que o treino de força em terra não tem a transferência desejada para a água e, como tal, o nadador tem de treinar força ESPECÍFICA dentro de água? Para que nada o nadador com lastros na água? Não será para manter o mesmo padrão de estimulação muscular? Não será para manter o mesmo regime de contracção, para que as adaptações revertam em favor da melhoria da performance de nado? Para que andamos nós a estudar a força em nado amarrado. Porque não fomos nós para a sala de musculação Pedro? Porque será que o Swaine diz que o Swim bench ou banco SIMULADOR de nado é o instrumento em que o padrão de contracção muscular mais se aproxima do do nado.
Por outro lado, não é a carga de treino uma sobrecarga atípica para o corpo humano? Não se tenta levar o atleta sempre mais alto, mais forte e mais longe? Respeitamos nós treinadores (ou vós, que eu estou afastada destas lides faz tempo) VERDADEIRAMENTE os sinais de perigo que o corpo do atleta emana? Não servem os períodos de "alívio" da periodização para apenas podermos sobrecarregar mais?
Desde quando é que desporto é saúde? Desde quando é que um atleta é um indivíduo saudável? Quantos ex-atletas conhece que não sofrem vida fora com as mazelas dos tempos da competição?
Diz também: "Então não se acautela determinado tipo de exercício que possa precaver lesões habituais em determinada actividade?".
Claro que sim! Mas isso não impediu um dos mais reconhecidos médicos da nossa praça ter escrito um livro chamado "Lesões típicas do desportista". Lembra-se desta lesõese deste livro, que certamente estudou? As lesões típicas são as que surgem, por exemplo, pela repetição do gesto, aquelas que não conseguimos evitar, são o reflexo do padrão do gesto de uma dada modalidade. São as lesões às quais quem sobrevive se torna campeão. Diga-me, se for quem eu julgo que é, não reza todos os dias para os seus nadadores não lhe aparecerem a dizer Pedro "DOI-ME O OMBRO!".
Diz ainda “Então não se cria um método de treino que tente equilibrar as assimetrias que quase todas as actividades desportivas por si só provocam?”.
Então não nota a antítese que contém a sua afirmação? “quase todas as actividades desportivas por si só provocam”. Eu pergunto-lhe simplesmente: porque é que os andebolistas e os voleibolistas têm escolioses? Será pela hipertrofia do braço dominante? A hipertrofia aumenta a carga ponderal de um dos membros, certo? E a escoliose aparece, certo? E qual o método de treino que a consegue evitar? Eu disse evitar e não impedir! E esta hipertrofia também aparece no fitness?
Parece-me bem inteligente esta sua conclusão, ainda que a meio de tabela: “Ou será que está a falar duma forma muito generalista só para chegar ao fulcro do seu post?”
Contra-pergunto: será que algum dos meus leitores habituais percebeu na integra o conteúdo anterior desta resposta que decidi dar-lhe?
Agora a sua questão: “Deixe-me que lhe diga que já muitas vezes me questionei porque, por exemplo, os futebolistas não têm uns exercícios ‘mais a sério’ de alongamentos [não aqueles que eles simulam como se estivessem a fazer um grande feito contorcionista…]’ Será que não evitariam algumas lesões naqueles músculos que obrigatoriamente têm de suportar corridas constantes ao longo de noventa minutos?”.
O exemplo que vem dar é pobre, bem o sabe. No mundo do futebol estão agora (falo, obviamente, de um passado recente) a dar-se os primeiros passos sérios de estruturação e planeamento. Há já, felizmente, muitos treinadores a realizarem um trabalho sério de flexibilidade com as suas equipas (há já equipas onde a pubalgia, por exemplo, é quase coisa do passado. Aqui tem o mínimo de flexibilidade de que fala no seu último parágrafo). De qualquer forma, diga-me qual a quantidade de trabalho de flexibilidade necessária para contrabalançar o estimulo de força, particularmente do trem inferior, que o futebolista sofre? Eu não sei… se calhar não serei assim tão especialista…
Obrigada pelo comentário. Foi muito estimulante esta discussão. Até breve!
13 comentários:
É por causa de tudo isto que eu não sou atleta, livra!
Susana,
Lamento dizer-lhe que está totalmente equivocada. Eu não sou o Pedro que supõe que seja. Eu sou um leigo total em preparação física. E o comentário que lhe fiz ontem foi como perfeito leigo a questionar situações que desconhecia do ponto de vista científico e que interpretei, repito, como mero leigo. Não tenho como rebater o que quer que seja, pois não tenho os mínimos conhecimentos para isso. Limitei-me a levantar questões que pareciam lógicas a quem está de fora e pensava, relativamente a um atleta de alta competição, por exemplo, que teriam um período de treino mais intensivo no início de uma época, posteriormente existiriam uns dias de menor esforço, para recuperar, e depois entrariam num nível médio que lhes garantisse a manutenção de nível para atacar no máximo o(s) dia(s) de prova.
Espero que entenda que não quis de forma alguma pôr em causa o seu texto, mas tão só expor as minhas interpretações que sabia, naturalmente, carentes de fundamento. Tão só, porque ao lê-lo, vi ser diferente de situações, actos ou acções que perspectivava de forma diferente.
Quanto ao Pedro que aparece é um dos nicknames que utilizo na blogosfera. Não tenho qualquer problema em me identificar, mas adoptei como princípio para a blogosfera a utilização de nickname.
antónio, ser atleta é um treino para a pr´pria vida, mas é assim mesmo!
Passos: respondi lá no seu blog. Ainda bem que confundi. Tenho o verdadeiro Pedro em tão bom conceito... Quanto à sua inocência leiga já tenho outra opinião, mas ainda bem que ela aqui veio ter, porque acho que o texto ficou óptimo.
Susana,
Eu também acho... bem há ali muitos pormenores que confesso não perceber devidamente, mas não há como aprender. Permito-me dizer que não sou muito apologista deste diálogo via comentários. Mas como não o posso fazer de outra forma tentei esclarecer tanto quanto pude (dentro do que estabeleci como os meus limites para a blogosfera) que não sou Pedro, pelo que não seria o 'tal'. Não foi minha intenção qualquer afrontamento. O 'Oh Senhora Professora' é um modo que utilizo frequentemente quando me insinuo a um nível abaixo do meu interlocutor, mas com humor. Lamento o mal-entendido provocado, mas fico satisfeito por ter provocado um texto bem sustentado. Talvez até lá volte para outros pedidos de esclarecimento.
Susaninha
Em primeiro lugar: clap clap clap clap
Em segundo há leigos que sabem fazer perguntas muito específicas. Isto permite-me pensar que a formação geral neste país está de boa saúde e recomenda-se.
Em terceiro lugar: estas discussões são óptimas para que continuemos a aprender sempre.
E, por se dar ao trabalho, muito obrigada
Beijinho
:)))
E o Sol voltou a este blog! Obrigada miss Solarenga! Queria que gostasse e gostou!. Quanto a si Paços, agora já não se livra de mim, vou seguir os seus "passos" atentamente (até já li o último texto! Hei-de comentá-lo a preceito, que agora o sono já bate com força).
PasÇsos: "há ali muitos pormenores que confesso não perceber devidamente". Diz quais são! Este texto ainda pode melhorar!
O verdadeiro e o falso Pedro!
O verdadeiro Pedro é o que não renega Cristo!
Mas Susana, todos nós temos dentro de nós um verdadeiro e um falso Pedro, já devias ter aprendido isso! ;)
antónio: falta-me uma catequese bem feita.
Uma menina que faltou à catequese! Nunca saberás o que é verdedeiramente o pecado!
Pecado não existe. Não preciso de uma catequese para saber o que não devo fazer. Já há beatinhas a mais a julgar que podem controlar (normalizar) a vida dos outros. Não gosto da igreja do homem. Vivo a minha espiritualidade ao meu jeito. Deve ser herança. Uma bisavó que não conheci parece que não ia à igreja. Dizia ela, entre as orações de cada dia, que os santos são de pau.
Aproveitei este período em que o Sol nao é recomendável e vim espreitar... mas já fiquei cansada qb :-)
António, imagina agora uma aula com a Su!!!
Bjs
Susana,
De regresso à blogosfera, depreendo que me pediu para lhe explicitar que pormenores não terei entendido devidamente. Eis pois alguns deles:
“Porque será que o Swaine diz que o Swim bench ou banco SIMULADOR de nado é o instrumento em que o padrão de contracção muscular mais se aproxima do do nado.”
Assim, a cru e sem ter ido realizar qualquer pesquisa sobre o assunto, não faço a mínima ideia do que se trata. Deduzo que seja algum equipamento para treinar musculação do nadador, mas, sem que chegue a ter a certeza, não sei como, nem que objectivos pretende alcançar.
“Por outro lado, não é a carga de treino uma sobrecarga atípica para o corpo humano? Não se tenta levar o atleta sempre mais alto, mais forte e mais longe? Respeitamos nós treinadores (ou vós, que eu estou afastada destas lides faz tempo) VERDADEIRAMENTE os sinais de perigo que o corpo do atleta emana? Não servem os períodos de "alívio" da periodização para apenas podermos sobrecarregar mais? Desde quando é que desporto é saúde? Desde quando é que um atleta é um indivíduo saudável? Quantos ex-atletas conhece que não sofrem vida fora com as mazelas dos tempos da competição?”
Estas questões coadunam-se com a prática que se subentende ser a lei, principalmente, quando os atletas são fonte principal de receita. Mas admitia eu que este caminho fosse o exigido pelos ‘dirigentes’, mas que em termos de treino – pelo menos em teoria – o assunto fosse abordado de forma menos ‘exploradora’ do atleta.
Eu sei que a utilização, na generalidade das modalidades desportivas, num maior números de vezes de um dos lados motiva uma irremediável assimetria. A ‘minha esperança’ era que fossem realizados exercícios específicos que visassem reduzir essa mesma assimetria. Eu arriscaria que a natação e a marcha serão das poucas actividades cuja prática menos provocará assimetria. Mas até aqui estarei provavelmente errado.
Quanto ao exemplo do futebol… admito que seja pobre, mas não sei porquê. Porque o planeamento de treino é descurado? Porque na realidade não se dá a devida importância à flexibilidade? Por mim faz-me imensa confusão ver a maioria dos jogadores de futebol demonstrarem um enorme esforço para fazer um alongamento que de elasticidade nada tem. Não se exigirá, digo eu, que façam ‘malabarismos contorcionistas’ com os membros inferiores, mas sempre julguei que com um pouco mais de elasticidade, um músculo não rasgaria com tanta facilidade quando o pé tenta chegar mais longe do que a distância/comprimento da perna.
E por agora creio que serão estes os pormenores menos entendidos.
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