Ler do inícioPassados três dias sem sobressaltos avistaram finalmente o mar. Os detalhes da viagem já os haviam preparado. O negro construiria uma jangada e o morcego voaria tão alto quanto pudesse, indicando-lhe o caminho nas horas em que o mundo dorme e ajustando rotas perdidas durante o dia, uma vez que o negro descansaria apenas duas horas ao amanhecer e depois remaria sozinho, confiando na boa sorte. A visão arrebatadora do mar, contudo, tolheu ao negro os planos mais imediatos. Assim que pisou areia o seu corpo pareceu desarticular-se e o seu espírito enlevar-se em direcção ao céu azul, desenhado, com as mil formas das nuvens que se podiam adivinhar. Ficou neste torpor até que o morcego acordou. Tal como havia acontecido com o negro, quedou-se estático ante a visão do oceano bailando sob o luar, desenhado, com o reflexo das mil formas das nuvens agora escondidas.
Ao amanhecer, finalmente sôfrego do seu plano, o negro começo a cortar árvores e a limpar o seu tronco com um seixo aguçado que o mar lhe deixara na praia. À noite descansava, enquanto o morcego reunia lianas para prender os troncos. A tarefa foi breve, que servia uma jangada à medida de um viajante, e brevemente partiram, não sem antes o morcego afagar respeitosamente a pena amarela do canário da princesa. Andaram depressa no mar a perder de vistas, que os troncos, de tanto terem olhado as águas, invejando a sua falta de raízes, pareciam conhecer-lhes as correntes. Assim foi até ao quinto dia de viagem. No sexto, subitamente, o mar pareceu ter poeira na garganta, tossindo rajadas de vento que faziam bater a jangada na água, como uma pedrinha bate num lago de águas calmas, se atirada com perícia. A noite estava escura como breu e a luta era certamente entre mar e céu. As águas revoltas erguiam-se soberanas, tentando apagar o hálito de fogo dos dragões ocultos pela negrura do céu. Ante a fúria da natureza, negro e morcego andaram uma hora à deriva. O negro estava deitado na jangada, agarrando-se com os braços às lianas que ameaçavam soltar-se. Com as pernas prendia o morcego, impedido de voar pela membrana molhada. A sua luta terminou quando todo o mar se transformou em cauda de Moby Dick e soltou a sua golpada final, partindo a jangada em pedaços, como uma criança parte um bolo pela primeira vez. O negro apenas teve tempo para abraçar um tronco com o seu braço esquerdo e envolver o morcego com o direito. Segurou-se com todas as suas forças, até não se lembrar de mais nada senão de um túnel ao fundo do qual não havia luz.
5 comentários:
Pois é amiga, as Susanas são sempre boas pessoas :)
Obrigado pela tua visita e fico feliz do meu livro ser neste momento "decoração" da tua mesa de cabeceira...
Como sempre, perdi-me na leitura no teu blog e apreciei mais uma vez este texto.
Bj
Luis
Susana estava a vêr que a água não chegava e logo tu que és uma mulher d´agua, :-)
Estou a gostar do enredo, do suspense no ar de capítulo para capítulo.Das súbitas reviravoltas. (Cá pra nós há alguma relação com teu estado de humor...) hehehe
Agora a sério está muito bem! Não sou nenhum critico literário, mas gosto da história que é muito colorida, repleta de imagens, com muita acção e fluída.
Bj
José
:) Obrigada José!
Susana, vou ficar por aqui. Amanhã continuo.
Fantástica, esta estória fantástica.
Até amanhã..., que pode ser daqui a pouco..., nunca se sabe :)
contracena: que coragem! Ler tudo de enfiada e no computador!!
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